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sexta-feira, 27 de março de 2015

esse conforto

pr’essa melancolia latente sempre
encontro conforto na livraria
da travessa na hora
do almoço ou quando escurece.

esse conforto logo transtorna-me:
ansiedade, angústia, aflição
para dar conta de ler tantos volumes
que se acotovelam na minha estante.

esse conforto logo vira uma ponta
aguda de inveja, como se houvesse do tipo
benigno, por não ter sido eu a escrever
aquilo que me veste em justa medida

esse conforto logo transforma-se
em consciência da pequenez e da absoluta
inutilidade do que escrevo
e que me deixa vulnerável  como

quem, pessoa ou planta ou livro, abre-se.
não estou morto.
n’algum ponto ermo
sei que não sou todo erros.

domingo, 2 de outubro de 2011

Bastardos

Todos os meus livros
anteriores
são renegados,
filhos bastardos
da rainha de cópulas
com o cavaleio ás de espadas
ou com o irônico bobo
da corte do rei corno
manso que trepa com a mucama
como se vinte anos
ainda tivesse.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Largado

Estou nos livros que joguei no lixo.
Estou na lista dos não vendidos.
Estou nos últimos lugares.
Estou nas estantes virtuais
Estou nos sebos, em promoção
- exemplares autografados! -
Estou na xepa da feira
Estou embrulhando peixe
Estou forrando gaiola.
Estou nos descartes
Estou entre os rejeitados.
Sem dono, sem norte,
apenas por aí.

sábado, 21 de março de 2009

Para as noites de chuva

Procurei de madrugada na livraria
companhia para a chuva
que do lado de fora parecia
chiado de agulha sobre álbum de vinil.
Comprei muitos livros pelas orelhas persuasivas
e jamais li os volumes.
Sou fácil de ser seduzido,
basta um sorriso, promessa de felicidade
efêmera que minha imaginação fértil
delira ser eterna.
Com ouvidos e olhos sobre os discos,
exausto e confuso, desisti de acompanhar
tantos lançamentos.
Restam o café e o cigarro
preenchendo as horas:
coisas simples.
Gente eu não agüento mais.