quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

As estradas sadias

Você deve ser mais feliz
seguindo a trilha natural que sai do seu jardim.
Meu caminho é mais torto.
Invejo estradas largas e sadias,
mas não posso me queixar:
tive muitos amores e
chorei muitas vezes de dor
e desentendimento.
Amar é deixar ir.
As memórias são mais sólidas e perenes
do que as realidades.
Guardo a sensação do que penso
ser amor.
Você foi o grande amor
daquela minha vida.
Foi eterno.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A visita

Recebi tua visita esta noite,
suntuosa e delicada
em um balé flutuante.
Nada será como antes –
eu já não sou.
Eu vou em círculos andantes,
o que quero talvez ainda seja o mesmo,
mas é outra a coreografia dos meus movimentos.


Recebi tua visita esta noite,
emocionante e distante,
como melodia celta.
O quer que seja, seja bela –
eu já não sou.
Talvez um mero errante,
passo por casas, templos, ruínas,
mas estou sempre pelas ruas.

Quantas luas tem o meu céu?

Sobre a noite de ontem, sobre o dia de amanhã

O corpo satisfeito
no meu peito,
o prazer molhado
nas pernas,
nos pêlos,
nos lábios.
O cabelo preto
no ombro nu,
a voz no ouvido,
suspiro
a vez de nós dois,
agora e não depois,
você não tem mais hora
pra ir embora.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Ela

Ela é todas as folhas avermelhadas do outono.
Perfeita demais para o sonho
que venho tendo a vida inteira.
O mundo ficou bonito
na vitrine dos seus olhos de gata.
Tudo se tornou possível quando a abracei
e me senti em casa.
Ela mudou para sempre o que sou
e o que serei:
livre de mim mesmo,
fiz-me dela.

Eu deixei

Fugiu ao controle,
saiu dos planos,
traiu a palavra,
não fez o combinado.

Caiu da cama,
rolou pelo quarto
está na sala
querendo ganhar a rua.

A história está no que omito.
É só isso, repito e minto.
Mas a verdade é que já faz tempo
que eu deixei de não te amar.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O amor

Love is all. O amor é tudo. E muito mais! Ou menos. O amor é mais ou menos. O amor não é isso tudo. O amor é uma lenda. O amor é compra e venda. O amor é troca. O amor é uma ilusão. O amor é a verdade. O amor é o caminho. O amor é a solução. O amor é carinho. O amor é compreensão. O amor é paixão. O amor é fogo. O amor é foda. O amor é sexo. O amor é uma droga. O amor é rock’n’roll. O amor é a musa. O amor é música. O amor liberta. O amor cura. O amor eleva. O amor salva. O amor é cruz. O amor é credo. O amor é fé. O amor fere. O amor vicia. O amor mata. O amor é vida. O amor é ferida (que dói e não se sangra). O amor é samba. O amor é luz. O amor é vaga-lume. O amor é perfume. O amor não é ciúme. O amor une. O amor é luxo. O amor é fofo. O amor é bobo. O amor é cego. Surdo, mudo, burro e tetraplégico. O amor é humor. O humor é incorreto. O amor é certo. O amor não é reto. O amor é curva. O amor é sol. O amor é chuva. E neve. O amor é leve. O amor é breve. O amor redime. O amor é sublime. O amor é o paraíso. O amor é um inferno. O inferno são os outros. O amor é o céu. O amor é o chão. Mas se houver posse, o amor é parede. O amor é o teto. O amor é o limite. O amor não tem limite. O amor não há quem imite. Nem na China, nem no Paraguai. O amor é Paris. O amor é o Rio de Janeiro. O amor é Veneza. O amor é beleza. O amor é lindo (O que mata é a...). O amor é eterno. O amor é infinito (Enquanto dura, todo mundo sabe). O amor a tudo vence. Eu amo. All you need is love.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Presença

Acreditei em mãos entrelaçadas.
Eu estava errado.
Mãos espalmadas são o amor.
Separadas, postas
lado a lado, de onde tudo
parte em entrega
sem esperar retorno.
E onde, sem esperas,
o que chega é bem-vindo.
Estar inteiro sempre,
sem precisar de nada.
Apenas querendo.
Sabe amar quem vive bem
sem amor.
Aqui estão minhas mãos,
aqui estão meus olhos,
meus gestos e eu.
Amor é silêncio.

Mel

Sol sobre soturno
dia
derrete o favo dos olhos
até o mel.
Eu que não como doce
me lambuzo
nadando em suas piscinas.
Não há bóias, escadas
ou salva-vidas.
Não há o que salvar.
Há o mergulho.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Nas nuvens

Cabeça nas nuvens
pés no chão
tornam-me longo demais,
vasto demais,
vago demais.

Dentre minhas opções eu fico
com os pés nas nuvens
e a cabeça perdida nalguma estrela.
Eu serei mais feliz assim, livre
do futuro.
O que temos afinal?
O chão é varrido,
as nuvens viram chuva
e as estrelas todas caem.

Dentre minhas opções eu fico
com a que você me deixa, a única:
solidão.
Você é muito pra mim.
Vasta demais,
vaga demais.
Tento, mas não te alcanço.
Pés no chão,
pés no chão.
Teus pés, onde estou.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Guardar

Eu fiz o que pude,
mas creio que não foi o bastante.
Eu não fiz o meu melhor.
Quis, insisti e quase aflito,
beirei o limite da inconveniência.
Então esta é uma canção de desculpas
por minhas faltas e excessos.

Já foi uma canção de desejo
e receio que será pra sempre.
Também foi uma canção desesperada
em meio a vinte poemas de amor.

Esta não é uma canção de despedida.
Mas é canção de desistência.
Toque de retirada
por tantas batalhas perdidas.
É uma canção de declínio,
discreto recolhimento
até o silêncio.
Estou tentando aprender
que é melhor assim:

apenas guardar você em mim.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Diariamente

Sua presença é faca.
Punhal cravado que me impede de sangrar
para um dia talvez cicatrizar.

Eu te perco diariamente
e repito incessantemente os votos,
dor e desejo renovados.

Mesmo sem o sabor da novidade
a cada dia fica mais difícil
resistir, decidir, partir

e simplesmente te perder de uma vez.





trilha sonora sugerida: Aerosmith

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Sugestão

O amor justifica tudo.
Verso que abre o poema
e encerra o discurso.
O amor justifica até rimas em ão,
desde que venham do coração.
O amor justifica nossos atos,
garante a vitória da coragem
sobre o medo.
Amor é companhia de viagem
e ao mesmo tempo é casa
sempre com cheiro de nova.
Meu corpo é a casa do teu.

A volta do filho pródigo

O diabo me protegeu com seu abraço,
rugiu suave, morno e com alívio.
O bom filho à casa torna.
Eu tentei ser bom,
mas caí mais que três vezes.

Deus me deu a maldição do desejo
mais que a graça do talento.
Desisti de tentar ser quem não sou.
Você esperava demais de mim.
Eu também.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Qualquer dia

Não diga quando,
não marque hora
não escolha lugar.
Deixe rolar,
a gente vai se encontrar
num fim de tarde,
num fim de noite
um começo de tudo
numa esquina qualquer.
Se for pra dar
ou pra fazer amor,
tanto faz
eu topo os dois,
eu quero é mais!
Deixe rolar
leve, lindo
breve e findo.
Qualquer dia,
um dia,
todo seu.

Verborragia

Meu verso me trai,
me entrega de bandeja.
Meu verbo sai,
escapa pela soleira.
Meu livro se abre
e na página que cai
é declaração.

Eu declaro que não,
nego que sim –
tudo em vão.
Pra quem leu uma só frase
está claro:
desejo.

domingo, 29 de novembro de 2009

O buraco

Tenho tudo
e um buraco.
Transparente
como vidro opaco.
Profundo
como águas paradas.
Doído
como quem engole palavras.
Quieto
como quem espreita.
Ativo
como quem não se deita.
O buraco
é quase tudo.

Entrega

Me dê fogo,
me dê rosas,
algumas horas.
Me dê de novo
me dê seu rosto
me dê o que roubo.
Me dê e depois
deponha sua arma.
Me dê sua luz,
um sorriso, a saída.
Me dê sua vida.
Me dê seu corpo,
me venda sua alma,
me empresta sua calma.
Me dê jóias,
estrelas de presente,
me dê filhos.
Me dê casa, comida
e roupa lavada.
Me dê uma carta
ainda não marcada.
Me dê guarida,
me dê um abraço,
me dê a mão.
Me dê um poema
me faça canção.
Me dê um beijo
me dê o peito
me dê colo
carinho, atenção.
Me dê desejo,
me dê vontade.
Me dê saudade.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

No chão de piso frio

Com a mesma suavidade com que o lenço
foi ao chão, eu soube.
O lenço ficou lá, documento
do instante em que percebi estar completamente
desapaixonado por você.
Não há lágrima para secar.

domingo, 22 de novembro de 2009

Então é assim

Então é assim,
chegamos ao fim.
A vida continua.
A cada dia
fica mais macia
a verdade crua.
Com o tempo que corre ágil
é mais fácil
me acostumar
a não ter,
vou te esquecer,
nada é para durar.
Nosso amor é descartável,
desimportante e pequeno.
Eu acreditei no improvável,
vadiei no baldio terreno
de quem ama.
E quem ama
sempre tem que perder
para aprender.


Eu não aprendi.
Não há o que te substitua,
a falta que sinto é tua.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Uma noite

Então eu lhe ofereci mais uma canção,
ela me deu o que sempre quis, o que sempre busco.
Seu beijo veio como a primeira dose em três dias.
Intenso prazer marrom e morno.
Não o morno das coisas medíocres,
mas o do conforto, o do aconchego.
Bebemos, fumamos, dançamos juntos bem
lentamente
até estarmos nus e levemente acima do que é real.
Saboreamos devagar cada estímulo aos sentidos,
perdidos de qualquer vaga noção de mundo
além das janelas do seu pequeno apartamento.



trilha sonora sugerida: "Sweet Jane", Cowboy Junkies

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Eu volto pra sempre

Eu achei que não fosse,
mas voltei,
não consegui evitar
o retorno ao porto do meu lar.
A diferença é que você
não estava lá pra me abraçar.
O vento é o ar
que não pára no mesmo lugar.
Eu voltei à mesma página
onde paramos de ler.
Eu voltei a te escrever.
A diferença é que você
não vai me responder.
A casa estava lá abandonada,
minha asa agora quebrada
e você, onde é que está?
Eu vou ficar,
eu vou te esperar na nossa cama
enquanto a grama cresce ao redor
e o sol faz mudar a cor da terra.
E você, por que não me espera?
Se eu volto sempre
ao mesmo lugar,
se eu venho pra sempre
te encontrar.

sábado, 14 de novembro de 2009

A eternidade

Troquei a eternidade
por esta noite
com a velocidade
dos que sentem o açoite
sobre o dorso.
O amor que nunca acabaria
terminou.
As celas ficaram vazias,
as velas me levam pra onde eu vou.
Pra onde eu não sei,
nada sei do amanhã.
Por onde andei
ficaram meus passos
e me interesso mesmo
por onde andarás.
Será que vais me levar?
Me leve leve
em teu coração.
Eu te peço desculpas,
eu te peço perdão.
Não pensei duas vezes
mas talvez
eu partisse naquela hora.
Eu sempre me parto
em dois,
me lanço ao agora,
esqueço o depois.
Você era a mesa posta,
meu lar, meu altar.
Eu queria outra resposta
nova para encontrar.
Eu quero a exatidão dos números
mas minhas contas só fecham
com tantos decimais.
Me diga pra onde ir,
me leve leve
em teu coração,
eu já cansei de ferir.
Por onde andarás,
será que um dia
eu volto?

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Para as noites de chuva

Procurei de madrugada na livraria
companhia para a chuva
que do lado de fora parecia
chiado de agulha sobre álbum de vinil.
Comprei muitos livros pelas orelhas persuasivas
e jamais li os volumes.
Sou fácil de ser seduzido,
basta um sorriso, promessa de felicidade
efêmera que minha imaginação fértil
delira ser eterna.
Com ouvidos e olhos sobre os discos,
exausto e confuso, desisti de acompanhar
tantos lançamentos.
Restam o café e o cigarro
preenchendo as horas:
coisas simples.
Gente eu não agüento mais.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Teu indecifrável olhar

Melodia canta
pérola negra
pura verdade
no olhar que me fita.

Harmonia encanta
concha negra
pura vontade
no olhar que evita.

Vira menina
doce negro
pura alegria
no olhar que me pede.

Torna-se mulher
fogo negro
pura lascívia
no olhar que me cede.

Eu te amo todas,
oculta e exposta,
enigmática e transparente
no olhar que me oferece.

Nunca vou te ferir
jura meu olhar
pela primeira e única vez
no olhar em que se reconhece.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Olhos claros

Você tem olhos claros
e os meus são tão
castanhos, nublados,
tão estranhos
os meus passos largos
sob céus de estanho
rumo aos teus braços raros,
abraços.

Se eu tivesse olhos como os teus
veria com nitidez
a insensatez do meu sacrifício
desde o início
tudo em vão,
tua palavra favorita é não.

A invasão da felicidade

A loucura se oferece insinuante
colorida como um céu de Van Gogh.
Eu lhe retribuo o sorriso
e aceito quase feliz sua chegada.
Ninguém percebia nosso flerte
e talvez sequer notem nosso enlace.
É tarde. Estamos face a face e ela,
linda! - como um dragão de circo chinês,
como um ladrão, um homicida da sensatez!
Estava mesmo cansado de ver o mundo
com olhos de quem entende o que está acontecendo.
Tenho novas cores agora, novas telas,
e da enorme força que me invade
faço segredo.
Perdi o medo.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Recorrência

Nunca são as mesmas águas onde me banho,
embora seja sempre o mesmo rio.
Eu recorro à nascente clara e
lavo o rosto todas as manhãs com o seu sorriso.

Eu vou

Sentei no telhado esperando Marte
cair sobre a minha cabeça na noite
eu creio que o melhor ainda virá,
mas só depois que a gente fugir.

Eu sou super sério e é por isso mesmo
que não quero mais essa rotina
neste país safado e sem-vergonha.
"Eu quero me vender, você me compra?"

Eu quero outra camisa, quero outra praça,
vou cantar bem alto outro hino,
recomeçar como se fosse menino
onde haja educação e respeito.

Não vou levar daqui nem o jeito,
nem a manha, só a lembrança
de que era para ser tudo diferente.
Era pra ser, poderia ter sido, mas não foi.

Eu vou.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Cabeceira

A blusa semi aberta e atirada
sobre o sofá,
(nunca soubemos esperar),
a meia taça derramada,
a luz que ficou acesa na sala,
e é preciso voltar
para fazer a música parar
(já faz tanto tempo).

Eu não quero sair daqui
nem quando o sol
passar pela cortina
(sempre esquecemos de fechar).
Não quero levantar o lençol,
por nenhuma outra razão que não
seja te roubar um beijo de bom dia
(e pedir um sorriso de resgate).

Decreta que amanhã é feriado,
dia de viver como você sonha
(e isso dá muito trabalho).
Eu vou passar as horas
brincando com teu cabelo
mergulhando em teu cheiro
como quem se enreda num livro.
(teu corpo é o meu livro favorito).

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Outro fim

Hoje te devolvo as chaves
e fecho mais um capítulo.

Sobre nada tenho tanta certeza,
mas acredito na liberdade, no amor
e na beleza dos gestos impulsivos.

Distribuo delícias e dores
em doses generosas,
durmo sobre cacos de vidro
quando não tenho insônia.

Talvez eu quisesse um outro fim.
Enquanto eu caio,
estouram fogos de artifício
lindos e indiferentes.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Terra

Bebi absinto
e quero mera
água com açúcar.
Estive em todos os picos.
Em todos os vales.
Sei bem que os deuses da intensidade
são igualmente os demônios da instabilidade.
Fui apresentado a todos, apertei a mão de cada um
olhando nos olhos.
Minha recusa agora não é covardia.
Certamente banquei apostas
em mesas das quais você não se aproximaria.
Entre o céu e o inferno,
escolhi a terra.
Só isso.
Tudo.

Incoerência

Não sei o que acontece,
o que era para ser paixão, arrefece.

meu texto perdeu a coerência
com a minha experiência.

era para eu estar feliz,
mas o que escrevo me contradiz.

meus poemas para você saem como água
derramando ressentimento e mágoa.

e eu ainda resisto em fechar a ferida.
e eu ainda insisto em ser parte da sua vida

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Curvas

O orvalho sobre a grama
anuncia a hora de florescer.
Ainda é de manhã,
mas nunca é tarde pra aprender
lição ou novo ofício.
Agora eu sei que preciso dar vazão
à corrente do rio.
Eu sou Dionísio,
sou Eros e sou Baco.
Sou barco em plena corredeira,
sou alma nua banhada em cachoeira,
rolimã descendo a ladeira.

Eu que sempre fui covarde
não tenho mais medo
de encarar dona desilusão,
escancaro o peito e corro pro abraço.
O meu mapa tem outro traço,
meu caminho eu mesmo faço.
Antes eu usava o pensamento
para não sentir dor,
agora danço sobre as dunas,
sobre as dúvidas,
e pavimento a estrada
sabendo fazer as curvas.

Eterno

Nunca diariamente.
Mas serei seu pra sempre.

domingo, 18 de outubro de 2009

Mono

Monografia
é a tese
monogamia,
o tesão.
Monarquia
é rei e rainha
monólogo
eu falo sozinha.
Mas o que eu grito
em dolby-stereo surround
só escutam
em mono.
E ninguém faz nada.

Instabilidade

Súbito em pleno vôo
saco a caneta escrita fina
e como se fosse estilete
faço inventário das palavras.
Eu não leio livros pelas histórias.
Garimpo frases pepitas
perdidas, vagalumes, as tais
agulhas em palheiros.
Penso muito mais veloz
do que escrevo,
correnteza de rio sem margens,
o presente nunca nos basta.
Há uma imperiosa necessidade,
compulsiva, de não perder.
De não te perder.
Mas já foi.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Meu mestre mandou

Doces eram os olhos da assassina,
palavras, as armas do crime.
Em seguida, o silêncio,
o abismo.
Caí no céu,
galguei o inferno.
O coração é um músculo mexicano
vertendo cada vivência
em ópera.
Escarlates veludos
desnudam o desejo.
Um beijo pode não ser a verdade
mas é o que queríamos que fosse.
O bem e o mal caminham de mão dadas,
fiz amor com ambos,
matei os dois
e caminho só.
Sou re(s)to.

Tom

Então ela me dedicou uma canção
no mesmo tom
de melancolia bela
no fundo dos olhos.

Estamos juntos
em nosso segredo
cuidado entre lábios
e mãos delicadas.


Forte e diferente
da vida à luz do dia,
é um certo tipo de amor,
e o amor nunca erra.

Indisposto

Eu devia ser como Bukowski.
Ninguém me entende,
talvez nem eu, nem Deus.
Não puxe assunto,
eu não estou disposto.
Não sou amigável,
não sou amistoso.
Talvez você perceba alguma animosidade
no meu rosto,
mas eu apenas não me importo com você.
Não minto.
Ensinaram que é feio o desprezo,
mas é melhor que o ódio
e é tudo o que eu sinto.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Bem aí

Eu sei que você está aí esta noite.
Sei que você vem todas as noites.
Gosto de ter você do outro lado de mim.

Mas por que você não vem de dia
e abre a porta?
Porque aí seria o fim.

Deixa entre nós o muro do poema.
O desejo morto como pássaro na mão.
Teu silêncio sempre diz que é melhor assim.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Faz isso

Me beija assim
Me molha na hora
Me liberta as feras
Me dobra as pernas
Me cubra com o corpo
Me invada as terras
Me mostra teu gosto
Me deixa teu gozo
E eu descanso no teu peito.

domingo, 27 de setembro de 2009

Todas as respostas

Oras erro as perguntas, oras as pessoas.
A verdade é que volta e meia embaço
meus olhos e tento revirar os seus.

Eu te pergunto se você me quer
porque sei que te quero,
e eu me pergunto se já não derramou
a água que seria o amor.

Todas as respostas encerram o risco.

Vírgula do tempo

Por acaso, o relógio do blog acusava
postagem precisamente às 00h00,
numa vírgula do tempo,
um hiato entre o ontem e o hoje.
E de quem é este dia?

Quem é o senhor do tempo,
Ou, ao menos, deste tempo?
O tempo é o senhor da razão
como alegou o político do passado
ainda votado no presente?

Quem é que tem tempo?
Para a poesia, de certo que ninguém.
De quem é o tempo?
O tempo é mesmo seu?

Ou é ele que te leva?
E o que você faz?
E quem você é?

E que horas você vem me ver?
E até quando você vai ficar?

A gente achou que era para sempre
Mas o amor dura três anos.

Perguntas demais para o meio da noite.
Perguntas demais para a meia-noite.

Esquece, era só um texto curto,
bilhete perdido da insônia,
era só um recado
na vírgula do tempo
na curva do vento
dessa madrugada no cerrado.

sábado, 19 de setembro de 2009

Os fatos

Rosa é uma mulher sem perfume.
Inocência faz sucesso tirando a roupa
para a platéia de solitários.
Jesus bate a carteira de otários.
O hábito não faz o monge,
nem o nome corresponde
à pessoa.

Esqueça essa matilha de palavras
que circundam os gestos.
Deixe que a atitude abra
as portas da verdade
e cubra as fendas do silêncio.
As mãos transformam a realidade,
a língua cria lendas.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Qualquer dia

Cinzeiros cheios
garrafas vazias
copos usados
corpos largados
pra ressaca do novo dia.
Qual a novidade,
é a velha boemia,
não tenho mais idade.
Mas quem diria
ainda estou aqui
vivendo como gostaria
até chegar o dia.
Você me condena,
diz que é retrocesso,
eu to feliz assim na boemia,
aqui me tens de regresso.
Eu não sou seu,
eu não sou certo,
eu tento ser eu,
qualquer dia acerto.

Passou

O que foi amor
numa noite ferido
foi choro aflito.
Depois, foi grito,
soluço,
suspiro.
E então,
única lágrima
um pingo
uma gota
uma nota
no piano.
E passou,
como a chuva.
Um chuvisco.
Mero cisco.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Você não precisa me dizer

O sim dos olhos
contradiz o não da boca.

O sorriso dos olhos
contesta o silêncio dos lábios

O brilho nos olhos
confronta o branco da língua.

Delay Pop

Percebi que envelheci
ao sair do mailing de raves GLS
para o de vernissages
e mostras de filmes de Fellini.
Nunca conheci uma parceira
pela internet ou fiz sexo virtual
e meus poemas não navegam
na rede.
Estão em livros. Santo Deus! Em livros!
Minha poesia é ruim
como diários de adolescentes
de pele oleosa,
e nem os jovens se identificam.
Aliás, jovens não lêem. Nada.
Eu ainda leio.
Eu ainda fumo.
Minhas tatuagens eternas na pele
não têm os traços da moda
do último verão
e faz uma década que ouvi
o último rock bom.
As gírias que uso já estão no dicionário.
Eu não cresci.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Esta noite sou eu

A saudade que ontem
te consumiu nas horas escuras
é minha hoje.

Todas as minhas companhias
precisam de energia elétrica.
Eu desligo a luz.
Se o dia de hoje acabar rápido,
pode ser que o futuro chegue logo.

Eu quero bom dia.

domingo, 13 de setembro de 2009

Incondicional

Não tem mais,
nem meio.
Principalmente, não tem mas.
Essencialmente, não tem se.
Risquei as vírgulas
uni as reticências em traço.
Escrevo frases curtas
com ponto final.
É o que agora faço.
Incondicionais.
Curtas
e finas
como agulhas
de medicina chinesa.

Assim

Discreta secreta misteriosa
inacessível musa diva
diáfana intangível inatingível
inalcançável impenetrável indefinível
insolúvel solução solta
livre linda.

improvável imponderável imprevisível
surpreendente inacreditável incrível
inesperada impensável impossível
inegável irrefutável irrecusável
sereia mar ilha.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Retrocesso

Desaprendi:

o rumo norte;
a caminhar com minhas próprias pernas;
a andar de bicicleta;
a amarrar os cadarços;
a ler as letras;
a contar até dez (ou mesmo a soma de 1 + 1);
a cantar o hino;
a ser menino;
a temperar a carne;
a mentir mesmo quando útil;
a sequência das notas musicais;
a alquimia das palavras para fazer poesia;
o nome de quem eu amava;
a amar como dois inteiros.

Ou nunca soube.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A pedra no meio

Com a boca no teu seio
eu te desprezo.
Mentira, na verdade,
eu quero não querer.

Tudo porque estou cheio
da minha carência,
e da sua presença
alheia ao desejo.

Eu não tenho receio,
é mesmo só tristeza,
faz tempo que percebi
que eu te perdi.

A pedra no meio
do caminho é a falta de um adeus,
e eu, que gosto tanto
de um recomeço!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A faca serena

Quando uma felicidade calma se instalou
as palavras foram melodia
aos poucos perdendo volume
até restar este silêncio precioso
que guardo nas mãos em concha.

A felicidade empunhou a faca serena
e matou impiedosamente a poesia.
Não chorem, não cantem, não bradem.
É apenas a morte.
E tudo deve morrer.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Habitat


Fernando de Noronha. Foto: Leandro Wirz

Poesia não se escreve
com girassóis
ou lírios.
Versos são cílios –
melhor, ciscos –
no olho
que não chora.
Escrevo porque abraço
ouriços.
Vivo isso.
Piso ruínas.
Habito-as.

domingo, 6 de setembro de 2009

A Balada de Denise


gota de chuva
acolhida
na folha de taioba:
mais vida
que brilha com sol.

sorriso de farol,
mão de fada,
alma de anjo atento,
generosa, espraia
luz sobre qualquer breu.

e eu, devoto
do teu nome
e da tua graça,
deixo entrar o cheiro
da nova manhã.




para minha irmã Denise Garrett

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Para os seus olhos

eu me dispo
como a manhã
estendendo-se sobre a sala.

eu me visto
como o vinho
encorpando-se na taça.

eu existo
como só poderia
depois deste encontro.

e eu me entrego
como oferenda serena
solta no oceano.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Adulto

Nossas diferenças são tontas
girando ciranda carrossel
de idas e vindas e vontades
essas, sim, tantas e tantas.

Os impulsos do sim versus
as razões do não,
melhor não,
são sem motivo.


O conflito perdeu o sentido.
O desejo ganhou fôlego.
Contínuo e consciente,
o impulso virou razão.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Estio

Semente no estio
aguardo tua chuva
promessa de colheita
na próxima estação.

Corpo vazio
à margem do olhar
que reacende a lareira
remota no coração.

Quero teu cio
como quem espera
o sol queimar
no alto verão.

Sigo vadio
ruas meio escuras
não pelo lado selvagem,
mas ao lado da solidão.

Meu amor se alimenta

Meu amor se alimenta de esperas,
esta noite ela vem ou não?
O futuro não existe
e torna tudo possível.
Teus lábios na minha orelha
sussurram a página zero
de um livro a ser escrito.
Um livro de areia
à espera de uma onda
de um vendaval,
de um final.
Certamente imprevisível
no oráculo ilógico do acaso.
Mas o meu amor permanece
impassível, inventando passatempos
esperando latente
espumante alvorecer.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Giro estático

Ao rodar a saia e espalhar as brasas
sobre os corpos dos incautos,
você incendeia suas pretensões
e alardeia a própria vaidade.
Faz girar ao avesso circunstâncias
conveniências, moralidades arcaicas.
Um raio de olhar em minha direção
confere a esperança
da sua entrega, como se por
um único instante você pudesse
não ser livre.
E eu passaria noites à espera
de não ser como todos os que
desejam os seus favores.

Agora que a verdade vem

Chega a doer
este poema no corpo.
Um soco
que desnorteia
e me põe sentado
à beira da cama.
Encontrar meu rosto
no espelho dos teus versos
tira meu ar,
arranca meu chão.
O clarão da luz tão forte
por um instante cega.
Mas tudo bem.
Agora que a verdade vem
eu sei para onde eu vou.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Placidamente

Atestam meus olhos plácidos
que não há gordura sob minha pele
a preencher os entreossos.
Há hiatos, vácuos
entre o plasma, o sangue
e músculos flácidos.
Exceto o coração.
Este tem o vigor imprudente
dos ousados,
dos quixotes frente aos moinhos
cruéis e ácidos.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A traição da memória

No velho cartão amarelado
deveria estar escrita sua promessa
de amor eterno.
Na foto envelhecida
você deveria estar ao meu lado.
Essa sua ausência gritante
é mais forte e duradoura
do que poderia ser a mais imponente
presença.
O vazio nos dita.
O vazio define a minha história,
determinada não tanto por aquilo que fiz,
mas por aquilo que entre meus dedos
derramou-se ao longo do tempo.

O que me resta é apenas uma narrativa
borrada pelas deformações da própria memória.
Esta é mais terrível das solidões.
Não conto com ninguém, nem comigo mesmo.
Avanço em quartos escuros
reminiscências esfumaçadas
palavras pastosas em bocas de não sei quem
Tropeço em pontos cegos,
embaralho pessoas, tempos, gestos
Como se os escaninhos perdessem as divisórias
e tudo fosse uma imensa teia melada
na qual deslizo como num sonho
ou a própria realidade.
A mesma história antiga se repete diversas vezes
E nunca é da mesma maneira.
A cabeça é um cão infiel.

Os sinos




busquei a face de deus,
ele era a cara do Jim
com óculos ray-ban
e olhos lisérgicos.
sua voz grave
dizia sandices
que soavam verdades.
meus sinos avisam que é hora
de voar.
meu corvo traz pérolas
no pescoço.
sempre algo morre
para outro nascer.
ou apenas tudo corre
para mudar.
eu quero ser mais moço
quero andar para trás
um passo
e saltar outros longos demais.
minha vida inteira crepita
como papel cheio de versos
velhos e o ruído da destruição
é música.
eu me interesso pelo calor do novo
que vem me mastigar.
eu quero rir e deixar a vida
cobrar seu preço.
meus sinos avisam que é hora
de voar.
escolho o que mereço.

Invocação

Há quem nas horas duras invoque os santos.
Eu chamo meu pai. Não sua virtude.
Seu vício. Sou como ele.
E peço que me salve da sina
de ser eu mesmo.
E de ser filho de peixe, desperdício.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

No canto da noite

No canto de cá da noite,
escrevo almejando teus olhos.
Posso dizer que te vejo lendo.
E repito à exaustão o meu texto
porque até as mentiras
demasiado repetidas
tornam-se verdades.
A mentira repousa no silêncio.
E onde vive a verdade?
No desejo ou na renúncia?

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A verdade

Estou em paz.
Conformado em nunca ter paz.
Assumo meus vícios -
que alívio!
Aceito, alforriado, o que sou,
não desfilo mais com mantos de virtudes.
Minha consciência dorme tranquila
ao lado da culpa. São amantes
em um relacionamento saudável.
Dispenso igrejas que vendam conforto,
estou acostumado à estrada errada,
não existem duas opções.
Ao menos, não mais.
Sou mesmo filho de Caim,
impuro e lindo.
Livre no espelho.

Corpo da terra

Hesito
entre o corpo da terra
e a língua do vento,
ainda não me entreguei
mas estou propenso
a fazê-lo.
Quero lamber o pêlo
banhar de leite o rosto
e o cabelo
para que a alma ganhe cor.
Nem dor eu tenho,
sou templo suspenso,
onde solidão é paz
e saudade não é mais.


Excito
com a chama da vela
e com a cama ao relento,
eu já tentei
mas não há consenso
entre meus deuses.
Quero vencer os medos,
lavar os becos,
revelar os segredos
para que a vida ganhe cor.
Ardor eu não tenho,
sou nascedouro sereno
de rio de pedras
no peito que se fecha.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Antena

No sofá da depressão,
assisto pelas grades da janela
à televisão dos outros apartamentos
piscando luzes madrugada adentro.
Mentira que eu sou o centro.
O vento, o movimento do mundo,
o seu sentimento,
o tempo,
eu não controlo.
Com meu descontrole remoto
não troco os canais da vida.
Permaneço eletrostático
à mercê da tua não vontade.

domingo, 2 de agosto de 2009

Secura

Meu coração está seco
como o chão desta terra
em pleno agosto.
Há poucos desgostos
eu ainda tirava leite
das pedras,
agora nem das tetas.

Meu olho está seco
feito a grama desta terra.
Nada mais me deixa chocado
nem a cama dela mais
me deixa excitado.

Minha boca alma está seca
como a água desta terra.
Com a calma de quem não tem paz
e desistiu.
Eu não tenho paz.
Eu já fiz o que ninguém viu.

Lua

Não é quando o dia amanhece em nova aurora,
a vida recomeça quando o sol cede seu lugar.
Esse é o sinal pra mim,
porque sou canhoto
e não destro,
porque sou verso
e não prosa,
canção e não matemática.
Sou guitarras e não armas,
porque sou emoção
e não lógica,
porque ando pelo lado mais vazio da calçada,
porque dirijo de faróis apagados na contramão.
Simplesmente porque sou
o final de semana
e não os dias úteis,
simplesmente porque sou
lua
e poderia ser só sua,
mas você não entende...

sábado, 1 de agosto de 2009

Pedidos de casamento

Eu não lhe peço amor,
porque este, me esmero e conquisto.
Eu lhe peço sabedoria
para usar o poder que lhe dei
de me ferir e de me fazer feliz.
Eu lhe peço erros novos,
porque os não repetidos, posso perdoar.
Eu lhe peço a coragem das palavras,
porque serpentes habitam alguns silêncios.
Eu lhe peço lealdade
para que a mentira não se deite entre nós.

Véus violeta



Suas mágoas
são pétalas de rosa sangue
embrulhando-se mutuamente.
Seus dedos longos alvos
mantêm o cigarro.
Seu vestido diáfano
suavemente cobre e descobre
seu corpo
sem que você se importe.
Há uma lágrima discreta
de profunda tristeza,
mas ela também já não lhe importa.
Até chegar às suas verdadeiras razões
existem camadas de véus violeta
e não há homem capaz
de ir tão fundo.

O chamado

Atendo ao chamado vocacional da liberdade.
Pratico o desapego
como se fosse preciso em breve.
Quero de tudo menos.
Inclusive, e sobretudo, pessoas.
Nem poucas e boas.

Eu tentei caber na página
da tua história,
construir laços longos
e nós apertados.
Minha partida vai te machucar.
Depois de toda a calmaria,
eu sou mar.

A correnteza segue,
a onda estoura na praia
distante.
Eu não temo jogar tudo e perder,
o medo é de não morrer
quando passar a tempestade.

sábado, 25 de julho de 2009

Construção

Da paixão, cansei, não quero mais saber.
Quero mesmo é amor, feijão com arroz,
construção.
Quero caminhar de mãos dadas, quero casa em obra,
vida a dois, e depois, filhos correndo em volta,
almoço de domingo na sogra.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A tristeza é uma gata

Estou certa que esta tristeza
não me pertence.
Ou não deveria.
Não hoje, apesar da chuva fria
quase estragar a sexta.
Mas deve ser a lua, ou o dia,
e eu faço carinho
na melancolia
como se fosse na cabeça de uma gata
manhosa e independente
deitada no meu colo no sofá.
A fumaça do cigarro dança
ao som da velha música e tudo
me lembra o que não vivi.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

As coisas serão eu

Essas tantas coisas que te dou,
essas coisas serão eu.

Sempre tive a sensação de que vou
embora cedo.

Não chega a ser pressentimento.
Pode ser uma vontade.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Eu é que deveria

Mentira se eu disser
que preferia que você
não tivesse vindo.
Mas é quase isso.

Você só faz o que quer.
Nada por mim.
Eu é que deveria fazer:
eu deveria partir.

Eu vou me ferir
ao te deixar.
Não se preocupe:
você não vai sentir.

domingo, 19 de julho de 2009

Mais um

Eu não vi nenhuma estrela,
mas a noite é clara.

Minha vida toda são momentos
que vivi por falta de opção.

Não encontrei o que quero,
não decidi o que ser.

Tenho a impressão
de não estar sendo eu.

Escrevo versos displicentes
para atravessar os dias

Cara velha à deriva
rumo à terra prometida.

Ninguém prometeu.
Tudo inventei.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Desassossego

Minha tormenta detrás dos olhos e
a rotação aleatória dos significados
fazem a permanente desconstrução do que sou.
Eu prego placas de sentidos
que não formam figura alguma,
meto as mãos precisas
na massa
e despejo o tempo
a fabricar poemas
inúteis
rogando por silêncio para os olhos.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Sinceramente

Você sempre disse
“eu te amo”
com responsabilidade?
Confesso que não.

E ainda hoje, ao te ver,
as palavras se penduram
na ponta da minha língua,
sinceras e inconsequentes,
antes do beijo.

Impagável

Como fazer poesia
num aula de finanças?
Perco tempo
como dinheiro.
Não se faz poesia
com economia de sentimentos.
Eu me endivido
em busca da palavra
exata
como nem os números são.

sábado, 11 de julho de 2009

O dia perfeito

Você me aprisiona no eterno presente
de anúncio ou calendário estático.
O mesmo dia perfeito
se repete indefinidamente
e repele o futuro que nos pertenceria.
Vivemos da memória do hoje,
da hipótese da manhã que não chega.
Giramos num círculo de dois, giramos,
ciranda que não se move,
carrossel de vontades renovadas e irrealizadas.
Nuvem negra que o vento não sopra,
e nem deságua forte sobre nós.
Não brotam flores.
Você me mantém vivo em suspensão
na exaustiva repetição do prazer no mesmo dia perfeito,
e da mesma dor provocada pelo futuro rarefeito.




trilha sonora sugerida: "Perfect day", de Lou Reed.

A porta



Sabe a lágrima que não cai?
Eu coleciono.
Você já olhou fundo na cara
do abandono?
Aposto que não e também nunca
perdeu um jogo.
Acho que você fugiu
depois de tocar fogo.
E nunca deu com o nariz na porta
quando tudo que queria era uma brecha.
Alguma vez uma única flecha
te atingiu ou todas acertaram a maçã?
Alguma vez alguma manhã
não te sorriu?
Você já dividiu a calçada
e chorou e riu
da ironia do destino,
da ausência de sentido?
Não, você é tão amada
que não sabe.
é mais que isso,
mas não cabe.
O que te importa
se me sinto excluído?
Nunca deu com o nariz na porta.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Pedra vogal

Trago uma pedra nas vocais.
Afago a vogal presa,
espero que escape ilesa:
bastaria a primeira letra
para puxar o resto.

O amor dita o que sou
e você está onde eu não estou.
O silêncio imposto
vira página e lágrima no rosto –
a vogal ainda presa à pedra.

Sentindo dor.

Ventura

Se por ventura, tivermos tempo, será na sexta.
Se por vontade, tivermos hora, será melhor.
Se por verdade, sentirmos desejo, nos tocaremos.
Se por virtude, formos justos, ficaremos juntos.
Se por vaidade, nos evitarmos, perderemos.
Se por vício, mentirmos, repetiremos o erro.
Se por veleidade, nos beijarmos, nos encontraremos.
Se por sorte nos acharmos, permaneceremos.
Se por acaso, tivermos chance, aproveitaremos.

Samba gótico

Para você, escrevo um poema erótico
inspirado pela sagrada libido
onde nada é proibido.
Componho um samba gótico
pros que vestem preto sob o sol,
mas gostam de sambar escondidos
na sexta-feira vestidos de branco.
Calçam tamanco ou sandália plataforma
e requebram as formas e os conteúdos.
Para você, faço um som híbrido e exótico,
mistura maluca de tudo
que faz o corpo balançar
e a alma renascer.
Por você, deixo de ser pernóstico,
paro de me esconder
no que esperam meus rígidos amigos
e me reduzo a ser somente eu.
Me amplio.
E, livre, posso ser só
meu e seu.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

DR

Ela escreveu:
"Estava recém semeada quando a reguei com um balde d´água
Era para ser amor, mas morreu afogada" *


Respondi:
A menina pensou que fosse
flor e regou.
Tola, fogo é o elemento do amor.


E fomos felizes para sempre,
cada um pro seu lado.



* versos de um poema de Cecília Calvoso.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Dois

Saudade dos olhos que me comem.
E das suas mãos firmes, ousadas,
que ignoram negativas.

Eu jamais seria sua,
você é incapaz de ser de alguém.
Eu não te quero mesmo.

Mas hoje, aqui sozinha,
duas taças de vinho,
ao menos seus dedos em mim.

Sementes

Eu quero me despir de mim.
Não apenas das vestes, dos pêlos,
dos vícios, mas das agressões,
das guerras pretensamente leais,
dos autoflagelos.
Deixar de praticar os meus rituais,
os meus crimes favoritos, os mesmos
desde sempre, que nem as culpas, nem as penas
evitam a reincidência.
Eu sempre semeei vento.
Eu quero me despir de mim.
Eu deveria.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Reverso

Este é um poema às tuas costas
rabiscado na contracapa
e na última página que lego
à memória do que não seremos.
São versos ao avesso,
o preço do tesão, tropeço
no nada no chão.
Não há nada que te leve
a me querer.
Dá-me apenas as costas! –
sem saber que me basta.

Nívea

Tem alguma coisa de nívea,
alguma coisa de névoa,
alguma coisa de nuvem.


Tem alguma coisa de néon,
alguma coisa de nova,
alguma coisa de ninfa.

Tem alguma coisa de notívaga,
alguma coisa de noviça,
alguma coisa de neném.

Tem alguma coisa de ser de ninguém.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Proposta

Eu me proponho a ser um prazer.
Uma tara
Um fetiche
Um deslize
Um erro
melhor do que um acerto

Eu me proponho a ser um vício.
Uma obsessão
Uma insanidade
Uma brincadeira
Um crime
perfeito e sem punição.

Eu me proponho a ser um pecado.
Uma loucura
Um sonho
Uma aventura
Uma irresponsabilidade,
ousadia dos que são livres.

Eu me proponho a ser um desatino.
Uma travessura
Uma fantasia
Um delírio
Saudade
Doída, pra sempre

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Ruas do seu corpo

Seria legal você não usar nada por baixo,
para que minhas mãos tenham livre acesso
a todas as ruas do seu corpo,
todos os becos quase escondidos,
sem gatos sobre o muro,
sem saxofonistas à meia-noite.
Todas as ruas do seu corpo limpas e livres
enquanto minhas mãos passeiam,
minha boca incendeia,
meu olhar descobre.
Ando por essas ruas pensando
que talvez sejam o meu lugar,
não são mais ruas que só atravesso,
não mais apenas vias de acesso.
Permaneço nelas, são meu lar.
Minha mão sobe por entre suas coxas
Levantando seu vestido
até chegar aos lábios.

Impasse

Você me cobra um novo poema
que reacenda o desejo.
Eu quero mais do mesmo velho calor,
um primeiro último beijo.

domingo, 21 de junho de 2009

Quem tem

Só acredito que você virá quando entrar.
Aprendi com tuas faltas a esperar menos.
E amar sem esperar é ainda mais generoso.

Amor desesperançado,
desiludido, realista, imperfeito.
O melhor que há, o mais verdadeiro.
Quem tem menos a perder tem mais a dar.

sábado, 20 de junho de 2009

Cobiça

Eu não sabia da missa
a metade
até inverter a premissa:
na verdade,
bela é a cobiça.
Nos corpos na dança
e no olhar que atiça
reacende a esperança.
Capital não é o pecado,
é o movimento.
Erro é ficar parado,
preso ao sentimento
do passado –
tudo tem seu tempo.
O desejo desconhece freio,
anula quem o envenena,
despreza a moral e o receio,
está acima da justiça.
Cala quem condena.
Amor é sempre cobiça!

quinta-feira, 18 de junho de 2009

As cartas

Dois cavalheiros duelavam por ela.
Um pôs as cartas na mesa.
Desfilou seu credo niilista.
Lançou mão do ás na manga
e interpretou-lhe os sonhos,
os desejos calados n’alma.
O outro, jogou as cartas do tarô,
predisse o futuro
e descreveu-lhe a aura.
A dama, entre suspiros, risos, sigilos sábios,
era quem dava verdadeiramente as cartas.

terça-feira, 16 de junho de 2009

O tempo não adianta

O cronômetro disparado
marca minutos lentos,
e vara noites em claro.
Estou acordado,
estou atento
a cada movimento.
Você merece cuidados
e despreza detalhes
que fariam a diferença.
Pra onde sopram os ventos?
Não há resposta que não se altere
de tempos em tempos.
E quanto tempo me falta?
E quanto tempo te resta?

O coração disparado
marca passos lentos,
e bate em compasso de espera.
E quanto tempo te sobra?
E quanto tempo me resta?
Os dias escorrem pela fresta,
aonde você pensa que vai
sem tanta pressa?
Todo o tempo do mundo
é um tempo que não existe.
Devagar se vai ao longe –
longe de mim.
A vida não espera,
o tempo não adianta.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Estar onde estou

O avesso da ressaca é o êxtase.
Estar onde estou agora.
Sem hora de ir embora,
sem pegar trânsito
para sair do transe.
Eu quero ficar no que há
de sublime no ar.
O momento quente
congelado no tempo.
Você me dá um doce,
pedaço de paraíso torto.
Não saio daqui nem morto.
O avesso da morte é o amor.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Casanova

Abro as janelas.
Esvazio as gavetas
retiro a poeira e viro
as páginas dos livros nas estantes.
Ponho os lençóis
para secar no varal
e o colchão para pegar sol.
Lavo a louça,
aspiro os tapetes
limpo o banheiro.
Varro o chão,
encero o piso.
Respiro.
Preparo a casa
para receber
Tereza.

Gênero

Você veio em busca de um poema bonito para acompanhar as flores.
Endereço errado.
Não escrevo poemas felizes de amor.
Escrevo poesia.
Não ficção.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Eu erro

Nem todo olhar redime,
nem todo gesto recupera
nem toda palavra salva.

Todo passo pode ser em falso,
toda dor pode ser velada,
todo grito pode ser abafado.

Nem todo crime merece castigo,
nem todo silêncio é entendido,
nem todo choro é ouvido.

Todo pedido requer atenção
todo pecado, perdão
todo engano, correção.

Amor é vertigem
e imperfeição.
Eu erro.

O blog no jornal




Esta imagem é da capa do Caderno C, o de cultura do Correio Braziliense, que traz,em sua edição de 9 de junho de 2009,a matéria "Poesia à solta",sobre blogs poéticos.

Para quem não o conhece, o Correio é o jornal mais lido de Brasília, cidade em que este carioca viveu por quase oito anos e que continua amando.

Fiquei muito contente em ser um dos entrevistados para a reportagem. A seguir, destaco o texto da matéria em que sou citado:

"Autor do bem-recebido livro de poesia Lâmina do Adeus, o poeta e publicitário Leandro Wirz (que trocou recentemente Brasília pelo Rio) fez do seu blog escoamento da produção poética. Às vezes posta imediatamente quando escreve, às vezes deixa maturar na gaveta até enviar para a rede, na qual mantém fiel e qualificado grupo de leitores.

— Ando desanimado em publicar livro impresso, há tantos lançamentos, tanta gente escrevendo e tudo é tão moroso, da edição às vendas. O blog surge por essa necessidade de atualidade, urgência. A poesia chega às pessoas que estão fora do círculo de amigos. Os versos seguem caminhos por mares nunca navegados. É fascinante, conta Leandro Wirz. "

Para ilustar a matéria, o jornal escolheu meu poema "Ganhos", publicado aqui em 7 de junho de 2009.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Indo

Use o gerúndio para me abandonar.
Não suportaria único e súbito golpe.
Faça cortes lentos e mornos
e avance em passos estudados
como se me seduzisse
ao avesso.

Acenda minha solidão à luz de velas.
Encha minhas taças não mais até a boca.
Elas ainda estarão meio cheias
e eu vou sorrir ilusões perdidas.
Deixe a distância pegar intimidade
até deitar-se em nosso sofá
e fumar em nossa cama.

Eu vou me acostumar a sentir
que seu corpo não é mais meu.
Por mais que eu mova mundos,
teus olhos não me querem mais.
Faça ser outono.
Eu preciso de tempo para entender
que suas razões estão acima da razão,
do bem e do mal.

Seja o que sempre foi até o fim:
feche a porta suavemente ao sair.
Um dia, vou abrir as cortinas da sala,
deixar o sol entrar como se marcasse o reinício.
E direi: eu estou bem, eu vou indo.

Revirar

As pontas dos pés ainda não tocam o solo
enquanto desço a garganta do diabo.
Com as mãos reviro os sentimentos
até o novo caldo de sabor desconhecido,
temperado com especiarias da dor
e das descobertas.
Tomo posse das minhas perdas.

Pano leve




Hoje eu não saio da toca,
não levanto da cama,
não mostro a cara,
não ponho os pés na rua.

É que minha tristeza está nua.
E eu preciso me cobrir
nem que seja com o véu
de mais uma mentira sua.
Jogue por cima um pano leve
que engane o tato
do meu amor cego.

A cena

a chuva copula o asfalto
copiosa chora e mente
lembrança
de amor ausente.
toma de assalto
o fim da tarde
quente
molha com alarde
os tetos de zinco.
trança com a noite
tramas com charme
acerca do perdido.
tudo é agora:
o silêncio urdido
os corredores fugidios
as nuvens de estanho.
eu sou sozinho –
só um estranho
no ninho
do mínimo tamanho
dessa boca de cena.
acena discreta
a senha secreta
que eu vou para aí.

A invasão da felicidade



A loucura se oferece insinuante
colorida como um céu de Van Gogh.
Eu lhe retribuo o sorriso
e aceito quase feliz sua chegada.
Ninguém percebia nosso flerte
e talvez sequer notem nosso enlace.
É tarde. Estamos face a face e ela,
linda! - como um dragão de circo chinês,
como um ladrão, um homicida da sensatez!
Estava mesmo cansado de ver o mundo
com olhos de quem entende o que está
acontecendo.
Tenho novas cores agora, novas telas,
e da enorme força que me invade
faço segredo.
Perdi o medo.

domingo, 7 de junho de 2009

As estradas sadias

Você deve ser mais feliz
seguindo a trilha natural que sai do seu jardim.
Meu caminho é mais torto.
Invejo estradas largas e sadias,
mas não posso me queixar:
tive muitos amores e
chorei muitas vezes de dor
e desentendimento.
Amar é deixar ir.
As memórias são mais sólidas e perenes
do que as realidades.
Guardo a sensação do que penso
ser amor.
Você foi o grande amor
daquela minha vida.
Foi eterno.

Abstrato visceral

Eu gosto do gosto
da tua boceta.
Eu vejo tua nudez
de olhos fechados.
Eu sonho acordado
com tua libido desperta.
Meu desejo é necessidade
física, é tátil, tangível,
e não apenas vontade.
Eu preciso te tocar,
cheirar, enfiar os dedos,
a língua, o pau,
em todos os espaços
e superfícies do teu corpo.
Eu sinto falta real
do que é carnal em nós.
Amor é abstrato e visceral.

Ganhos

Pegue outro pequeno pedaço
do meu coração,
que diferença faz?
O que tive, perdi,
não tenho mais.
Você tem a chance de ser feliz,
não perca este instante.
Não hesite em vender a alma.
Mente quem diz
que temos todo o tempo.
Perca a calma,
perca-se por nós.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Mercado das flores



Mulheres modernas têm arrobas nos seios
e códigos de barra no ventre.
Homens contemporâneos trazem etiquetas
de marca, modelo e preço.
Tudo mudou e ficou na mesma.
Estamos no grande mercado:
somos todos produtos naturais,
fabricados, importados, falsificados.
Genéricos desde sempre.
É genético o apetite pelo novo,
o desejo insano pelo prazer inédito.
Amor é outra história,
assunto para longa conversa
ao pé do vinho.

Mãos cheias

Eu tenho um punhado
das tuas horas
entre tantas de solidão
que um desavisado diria
serem sobras
da tua rotina.
Apanhado de letras
espalhadas por páginas,
e acordes entre cordas.
Tenho mancheias
de fotos guardadas
entre tantas imagens
e algumas frases registradas
entre tantas palavras.
Eu tenho um bocado
de momentos espaçados
entre tantos fatos.
E a eles me apego
como a velas na escuridão.
E a eles afago
para mimá-los na memória.
Não posso me queixar
que tenho apanhado:
venho colhendo flores
entre pedras.

Não me falta

Não é vocação,
nem ofício, carma
ou vício.
Muito menos sacrifício.
Não há remorso,
culpa ou auto-indulgência.
Não me falta brio,
não me falta brilho.
A dor é o único amor
que não perdi.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

De mais ninguém

Quando calei,
disse tudo o que quis.
Ninguém me ouviu,
como sempre.

E fui meu.

Deixa só eu sair daqui

Enquanto a areia pinga o tempo
torno minha pulsação fútil.
Sou isso, sou riso, sou frívola.
Não quero fazer nada do que querem que eu faça.
Vou viver free, vou fazer graça.
Vou dançar na chuva, brincar na lama,
rasgar a membrana que protege o coração.
Deixar a chama bailar no vento sem apagar.
Nas veias corre lava
mas tem gente que passa e cozinha.
Eu passo sozinha.
A paciente passa bem.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Night must fall

No escuro escuto
canções de despedida,
vejo o céu pela janela
e a noite deve cair.
Eu anseio por ela
morna e serena em mim.
Mora em mim
morena que fiz partir -
foi o melhor que lhe fiz.

No escuro escuto
seus passos,
perdi o controle
num carrossel
de erros, culpas e omissões.
Não ofereço mais resistência,
estou imóvel, olhos fechados
no olho do furacão.
Já não é hora?
A noite deve cair.
Tudo acontece dentro de mim,
a noite deve cair.



ps.: trilha sonora para este post: "Night must fall", Hoodoo Gurus

Marrom

Tua voz tem
tons de marrom
em veludo
e é calefação,
pulsar morno e forte
sobre corpo desnudo.
Teu sotaque do norte
ergue abrigo sobre mim,
que o perfume amadeirado
torna lar.
Tudo que sai de tua boca
é mel.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Visitação

Meu coração é tão somente
coleção. Biblioteca
onde repousam volumes cobertos
de poeira, ácaros e traças –
e onde vibram
versos, títulos, frases soltas
como notas de piano impaciente
ou guitarra crua.
Lá estão enterrados todos os amores
incapazes de morrer
e os ódios calorosos que não executei.
Lá reside você, guardada em altar com os pés
– apenas os dedos dos pés –
banhados pelos meus venenos.
Eu não sou puro.
Mas lhe oferto o melhor de mim.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Oceano castanho



O meu lar, reencontrei na cidade que beija o mar.
Minha casa, nesse mar que banha de felicidade.
Minha lua se faz corpo sobre suas marés.
No oceano castanho do seu olhar,
flutua meu olhar da mesma cor.
Onde navega, verdade nua, o meu amor.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Retrocesso

Desaprendi:

o rumo norte;
a caminhar com minhas próprias pernas;
a andar de bicicleta;
a amarrar os cadarços;
a ler as letras;
a contar até dez (ou mesmo a soma de 1 + 1);
a cantar o hino;
a ser menino;
a temperar a carne;
a mentir mesmo quando útil;
a seqüência das notas musicais;
a alquimia das palavras para fazer poesia;
o nome de quem eu amava;
a amar como dois inteiros.

Ou nunca soube.

domingo, 17 de maio de 2009

Meu amor se alimenta

Meu amor se alimenta de esperas,
esta noite ela vem ou não?
O futuro não existe
e torna tudo possível.
Teus lábios na minha orelha
sussurram a página zero
de um livro a ser escrito.
Um livro de areia
à espera de uma onda
de um vendaval,
de um final.
Certamente imprevisível
no oráculo ilógico do acaso.
Mas o meu amor permanece
impassível, inventando passatempos
esperando latente
espumante alvorecer.

sábado, 16 de maio de 2009

O amor vai nos separar

Aqui de novo nós
sentados, olhando pras nossas
caras cansadas
de tanto brigar
pelos mesmos motivos.
Palavras, algumas violentas,
jogadas pelo ar,
e você ainda me diz
que o amor vai nos separar.

A discussão começa
quase sempre à toa.
Essa cobrança
de medir os sentimentos
com uma régua
e a gente cansa
de gritar e ouvir
eu te cobrando sentir mais
e essa sua tolice
de me cobrar sentir menos
e você ainda me diz
que o amor vai nos separar.


ps.: a trilha sonora para este post é, obviamente, Love will tear us apart, do Joy Division.

Recorrência

Nunca são as mesmas águas onde me banho,
embora seja sempre o mesmo rio.
Eu recorro à nascente clara e
lavo o rosto todas as manhãs com o seu sorriso.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Nem pense

Nesta noite
quase raiando o dia
eu queria um pouco mais
de loucura e poesia,
mas acho que não vai dar,
só, quem sabe, pra amanhã
entre onze e meio-dia.
Minha overdose demanda
água e glicose,
colo e café
sem açúcar pra me por de pé.

Vem morena, descalça
meu all star de cano longo,
eu adoraria, mas hoje não,
nem em sonho.
Esta noite estou com receio,
acho que passei do ponto,
eu estou meio doidão:
bebi fígados
fumei meus neurônios,
esta noite eu não tenho
mais pulmão.

Nem tesão,
você que me desculpe
e entenda.
Hoje não há vela que acenda
no vento da minha cabeça.
Não se preocupe,
só me dê um tempo,
qualquer hora essa delenda
há de acabar.
Agora eu vou embora
e nem pense em me acompanhar.

Estio

Semente no estio
aguardo tua chuva
promessa de colheita
na próxima estação.

Corpo vazio
à margem do olhar
que reacende a lareira
remota no coração.

Quero teu cio
como quem espera
o sol queimar
no alto verão.

Sigo vadio
ruas meio escuras
não pelo lado selvagem,
mas ao lado da solidão.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Lavagem




Nenhum traço de saudade em suas linhas.
Apenas a gentileza própria das amizades.
E eu esperava febre.

Desbotamos.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Largado

Estou nos livros que joguei no lixo.
Estou na lista dos não vendidos.
Estou nos últimos lugares.
Estou nas estantes virtuais
Estou nos sebos, em promoção
- exemplares autografados! -
Estou na xepa da feira
Estou embrulhando peixe
Estou forrando gaiola.
Estou nos descartes
Estou entre os rejeitados.
Sem dono, sem norte,
apenas por aí.

sábado, 9 de maio de 2009

Generosamente

Nas palavras sujas desta página branca
na poesia pura das tuas pernas grossas
nas mentiras doces em tua língua
na maciez dos teus lábios finos
na água salgada em teus olhos
na verdade inconteste das tuas curvas,
percorro o caminho do teu gozo
e do meu paraíso.

No amor que vira saudade e não se contenta
no desejo que vira febre e atormenta
nas poucas horas que temos
nos momentos únicos que não esqueceremos
no riso fácil no cotidiano
na ausência sentida em cada dia
sei que sou livre
e quero viver ao seu lado.

Na infinitude desta cama
na plenitude que se sonha
na família que se constrói
na intensidade do que se vive
no silêncio da minha boca
na eloqüência dos meus gestos
generosamente te elevo ao conforto maior
e não te peço nada.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Sem corpo

Curvo sobre o velho papel,
rabisco esquerdas palavras
com a lua sobre os ombros.
Carpintaria de intimidades universais
talhadas a grafite
para que ganhem corpo.
Não há o que fique
estanque: ar, sentimento,
água ou sangue.
Tudo corre
na direção do próximo
momento.
Turvo é o hoje,
amanhã há de ser claro,
raro brilho branco
hóspede permanente
entre teus lábios.
Meus braços estão abertos
em convite.
Sem teu corpo.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Para poucos

Na poltrona vermelha onde
o sol se põe, me descortino:
passional, frágil
e corajoso por só ser
eu mesmo,
imerso e transbordado
em minha prepotência sensível
num vácuo que não dá medo.
Meu caminho é só,
pavimentado pela solidão doída
de quem se encontra
e se entrega a quem não lhe quer.
Tudo passa e marca
a ferro, fogo e faca
a sensibilidade grotesca do real.
Sou para poucos
e você não pode ver.
Lamento.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Tenho por premissa

Todo verso meu é penúltimo.
O poema tem a obsolescência planejada
própria dos meus amores.
Tenho por premissa a procura,
a loucura da paixão
afrontando impertinente
qualquer paz que se pretenda
perene.
Prometo todos
os paraísos e
cometo todos
os pecados -
inexistentes.

sábado, 2 de maio de 2009

O azul



A branca espuma do mar
varreu as pedras dos meus planos
e trouxe a noite.
Deus tornou inválida
qualquer tentativa.
E eu continuo a embaralhar a felicidade
com o azul dos seus olhos
mas nenhuma onda vem me levar,
nenhuma.

Queima de arquivo

Queimei livros
e as cinzas, espalhei ao vento.
Nenhum ato de censura
que não fosse auto.
Todos os versos destruídos
eram meus.
Todos os verbos destituídos
pela minha ditadura.
Cremei um pouco de mim
no Planalto Central.
O rei de antes
vai ao inferno de Dante.
O algoz é o herói
que poupa os mortais
do desastre.
O homem de amanhã
se envergonha do ontem
e não perdoa.
Perdão é uma sentimentalidade.

Scars



Não tenho mais os longos cabelos dos deuses nórdicos
e meus traços fortes tornaram-se fendas.
De menino prodígio
fui logo a velho precoce.
A rua me roubou.
De óculos escuros vejo
a felicidade no retrovisor
e acelero em sua busca.
O que eu tenho agora?
Estrada & escamas.
Ainda alço vôos,
tenho asas
tatuadas na alma.

Meu mestre mandou

Doces eram os olhos da assassina,
palavras, as armas do crime.
Em seguida, o silêncio,
o abismo.
Caí no céu,
galguei o inferno.
O coração é um músculo mexicano
vertendo cada vivência
em ópera.
Escarlates veludos
desnudam o desejo.
Um beijo pode não ser a verdade
mas é o que queríamos que fosse.
O bem e o mal caminham de mão dadas,
fiz amor com ambos,
matei os dois
e caminho só.
Sou re(s)to.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Maio

Era maio
quando consegui
um beijo do sol.
Veio como a luz do farol
indicando veredas no mar.
Minha voz virou instantânea
certeza
ao te encontrar.
Tua delicadeza,
simultânea
menina mulher,
abriu pro mundo
a fortaleza
revelou a beleza
do amor secreto.
Você fez meu caminho reto
até onde quero chegar,
sou feliz e não me distraio,
ainda é maio,
sempre será.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A velha rua

Desço a rua velha conhecida,
sei onde vai ela vai dar
como todo rio corre pro mar.
Eu posso mudar, eu posso, eu juro,
eu posso me regenerar,
mas eu aqui estou com meus vícios,
meus humores e contradições,
e nem mesmo eu acredito mais em mim.

Desço a velha rua com o mesmo charme,
com o cinismo de sempre
e os desejos de hoje.
Você me olha, pensa me querer,
mas não caia na besteira de me escolher:
eu sou o caminho errado,
a via torta, o lado selvagem,
o pé no abismo, o salto no vazio.

Desço a velha rua conhecida até o prazer.
Sei onde ele está,
como coisa que nunca muda de lugar.
Sei o preço e você não vai querer pagar,
custo caro e não valho nem um terço disso.
Ouça o aviso: quando cruzar comigo,
troque de calçada e dobre na primeira esquina.
Não olhe para trás.

Este

Foi bom enquanto durou
é o melhor clichê
a ser dito
na despedida.
A gente nunca se iludiu
que seria infinito,
mas sempre quis
que fosse bonito
até o último beijo.
Este, de adeus.

Talvez a gente leve
um gosto de quero mais,
mas que seja breve
pensar na possibilidade
do que poderíamos ter sido.
E a gente releve
a saudade
porque a vida segue
e amor vem outro.
Este, é seu.

Foi.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A aurora doeu



Em 23 de abril de 1987, aos 18 anos, lancei meu primeiro - dos até agora, cinco - livros de poemas. Então, publico hoje alguns textos daquele livro: Poema do Espelho, Janela e A aurora doeu. Já postei aqui, em setembro de 2008, o poema Engenharias, que também integra o livro.



Todo mundo se diz tão bom,
quase todos não são.
E eu sou tantos
e sou só um,
nas noites e dias sem rumo,
um homem à procura de si.

Deve haver luz no fim da confusão,
se tiver fim essa indagação.
Como um sol que nasce,
a resposta sairá de mim.
Eu tenho vida,
quero ser feliz.

Os sonhos me levam aos édens
e o mundo me corta as asas.
Se você visse por trás
da máscara dos meus sorrisos
talvez entendesse melhor
porque estou fazendo isso comigo.

Eu derramo emoções
para não me afogar nelas
e mergulho fundo
tentando me encontrar.
Não sei se estou certo,
sigo sem saber aonde parar.

Eu quero amor e quero paz,
eu quero muito mais.
Quero ser quase deus,
quero explodir.
A aurora tá doendo.
Dói tanto.

Janela

Há os fortes
também os fracos
eu eu penso na vida
na solidão em mim.

Há os corajosos
também os covardes
e eu penso na morte
talvez seja melhor assim.

Quando olho pela janela
imagino a liberdade e vôo
louco para o renascer
não definitivo fim.



(Letra: Leandro Wirz / Música: Alair Drummond)

Poema do espelho

Fico horas em frente a você.
Não, não sou um narciso.
Permaneço sem desviar o olhar
só porque estou um pouco indeciso.

Talvez eu te ame por me refletir
ou te odeie da mesma forma
por me mostrar, me exibir
sem censura ou máscaras.

Até que com um soco te faço mil
e tu me fazes um corte e sete anos de azar.
Busco, reviro, cato entre os cacos.
Talvez me ache em algum lugar.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

O pé sobre o dorso

O ponto final é
o pé sobre o dorso
do animal abatido.
Ainda acelerada batida diz
missão cumprida!
Foi preciso quase serrar o osso,
sentir a dor do gelo sobre a raiz do nervo,
sofrer a culpa pelo erro
e o calafrio da perda,
perceber a queda de cada fio de cabelo
e sorrir sem medo, como quem é feliz.
No amor e na guerra, não há juiz.
Mas há vencedor e vencido.
Ainda ofegante, eu piso,
Você cala, eu quero bis.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Garganta do diabo

Motivado pelo teu desamor
eu desço à minha garganta do diabo.
No quarto vermelho,
abraço meu demônio azul
com respeito e afeto
antes do conflito.
Eu vim olhar nos olhos da dor
vim buscar as minhas razões,
encontrar o que perdi
ou o que nunca tive.
Eu estou tentando
desesperadamente
me manter de pé,
e, no fundo, sei que estou
completamente só.
Neste quarto escuro,
neste deserto,
nem meu nome eu sei.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O mero, o belo e o fugaz

A beleza é a única virtude
capaz de justificar em si
a existência.
O belo é, por natureza, fugaz.

Ao tempo não se pretende vencer,
adversário que já foi ou ainda virá,
armado de ardis e máscaras
que lhe ocultam a face.

À feiúra que agride os sentidos,
declara-se guerra.
E há o sacrifício de tantas vidas
e o espetáculo de tantas mortes.

Fazer o belo é tudo
que se pode pretender:
por isso, meramente,
o amor e os fogos de artifício.

domingo, 19 de abril de 2009

Certeza

Da uva passa dos dias
eu faria vinho
para embriagar tua vida
E clarabóias permissivas
rompendo os breus
e os enigmas castanhos
dos teus olhos.
Desbravaria teus paraísos
igualmente
erguendo moradas provisórias
como a felicidade é sempre.
Inverteria a rotação da terra
para manter a pino o sol –
enquanto houver sol,
eu serei teu.
E eu inventaria outro idioma
no qual compreenderia os silêncios
e eternizaria teu nome
rimando com beleza.

sábado, 18 de abril de 2009

Placidamente

Atestam meus olhos plácidos
que não há gordura sob minha pele
a preencher os entreossos.
Há hiatos, vácuos,
entre o plasma, o sangue
e músculos flácidos.
Exceto o coração.
Este tem o vigor imprudente
dos ousados,
dos quixotes frente aos moinhos
cruéis e ácidos.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Eterno retorno

No fundo do meu olhar,
a tristeza, mais antiga hóspede,
está de volta.
Eu pedi que retornasse.
A casa ficava tão vazia.

O que guardo há mais tempo
é também o meu futuro.
Em essência, é o que sou.
Quando o sol apareceu,
eu fechei a cortina.

domingo, 12 de abril de 2009

Ao terceiro dia

Existe - tem que existir! -
algo melhor que versos tristes
pra eu dar a quem estiver por perto.
Decidi que vou ser feliz.
Vou descobrir o que é certo,
andar sobre os trilhos,
caminhar reto
e persistir.
Façam suas apostas,
eu vou à vida!
Hoje é a minha Páscoa.

sábado, 11 de abril de 2009

Estética asséptica

Viro a página e encontro o branco.
Tudo muito limpo, plano e esguio
como convém, mas não quero.
Estou farto de objetos sem funcionalidade
ou alma dispostos nos shoppings estéticos
da hipermodernidade.
Estou cansado do seu amor
como jogo de estratégias e filigranas
e do seu comportamento ditado.
Estou enfastiado por tantos programas
e por teu sexo asséptico
em ambientes estéreis, porém bem decorados.
Permaneço à espreita de céus com nuvens
de chuvas de verão
prenhes d’água e sentidos.
Quero encontrar na face do outro
a parte perdida
da minha humanidade.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Repaginada

Se esta não é a sua primeira visita, certamente notou que eu mudei o leiaute do blog para que a navegação ficasse mais amigável e atraente.

Se curtir, dê a dica aos amigos. Se não gostar, indique para os inimigos.

Aproveitei a repaginada para inserir à direita, mais abaixo, a possibilidade de você, leitor(a), assumir que é fã, e se tornar “Seguidor” do blog.

Então, sinta-se convidado(a) a me seguir por estes mares, lembrando que, como escreveu Oscar Wilde no prefácio de O Retrato de Dorian Gray, “os que buscam sob a superfície fazem-no por seu próprio risco”.

E navegue também pelo meu outro blog: www.mardecoisa.blogspot.com

Graveto

Foto: Leandro Wirz

Sou qualquer graveto,
miúdo pedaço de galho partido,
perdido de árvore seca.
Estou aos montes espalhado
pelo passeio público,
pelos atalhos do outono
estalando sob passos apressados
dos pisantes distraídos
e distantes.
O fogo é o único amigo do diabo.
E também o meu.
Me permite derradeiro e digno suspiro
no crepitar em noite de lua.
E viro fumaça no ar
ainda ouvindo sua voz se afastar
entre acordes tristes.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Unguento

Cubra-se com esta folha
como unguento
sobre cada ferida.
Campo de força, bolha
isolando o tormento
da dor sentida.
Medicamento
para estancar
o que se esvai.
Corrente de vento
para levantar
a poeira que vai.
Sortimento
de ervas, chás,
remédios de cura.
Momento,
a hora má
arde mas não dura.
Lamento
pela cicatriz
sobre a pele lisa.
Fermento
para ser feliz
é olhar para cima -
firmamento
vale a pena
mesmo contra o sol
Eu tento,
palavra ainda que pequena
é macio lençol.
O verbo que foi navalha
sofrimento
braço da vontade de cair
agora valha
como alento
abraço com desejo de sorrir.

Ao natural

Todos me querem brilhante,
não o que sou antes.
Todos me querem especial.
O que sou ao natural
é mais vício que virtude.
Sei qual a atitude,
falta a coragem
para pagar pela passagem.

Nada de amor, fortuna ou sorte,
nas noites de ano novo, peço a morte
do que não sou, mas tento.
Nesta manhã eu me reinvento
sigo livre junto ao meio fio
e você pode dormir enquanto eu guio.

Leoa

Quero te decifrar
e te devorar
quero te conhecer
e te amar,
não sei a ordem.
Devolve a poesia que te dei,
ela me custou caro.
Faz valer o que ainda não paguei
e que seja raro.

domingo, 5 de abril de 2009

Ela

Grafite de Marcella França. Foto: Leandro Wirz




Ela é todas as folhas avermelhadas do outono.
Perfeita demais para o sonho
que venho tendo a vida inteira.
O mundo ficou bonito
na vitrina dos seus olhos de gata.
Tudo se tornou possível quando a abracei
e me senti em casa.
Ela mudou para sempre o que sou
e o que serei:
livre de mim mesmo,
fiz-me dela.

sábado, 4 de abril de 2009

Um cara comum

Sigo a penúltima moda
faço crediário no hipermercado
gosto de beber com meus amigos
grito pelo meu time
luto pelo meu país,
até já acreditei em governantes.
Troco apelidos ridículos com meu amor
fumo mais do que deveria
trabalho duro
ganho menos do que gostaria
pago impostos
e quase todas as contas em dia.
Estudo,
mas não sei tudo.
Sonho com uma casa
e em dar aos meus filhos o que não tive.
Acho que Deus existe,
mas faz tempo que não rezo.
Assisto a TV aos domingos
visito minha mãe
e como macarrão.
Durmo logo depois de gozar
passo férias na praia
faço misérias com a bola nos pés
dou esmolas
leio jornais, mas não livros,
e não perco a esperança de um dia
viver num mundo melhor.

O amor pulsa na quietude

E de nada mais servem palavras
incapazes de aprisionar o seu cheiro,
de fixar o sorriso entre os lábios
e a cor do seu olhar.
Finalmente, me dou conta da inutilidade
de tudo que não é silêncio.
O amor pulsa na quietude
de simplesmente ser.
Dispensa legendas, discursos
e todos os livros na estante.
Cala-me.

sábado, 28 de março de 2009

Situação

Cansei de me desamar.
Rio primeiro
para depois ficar alegre.
Esqueci que estou triste.


Lembro que ainda te amo.
Sei que te odeio.
Cuidado.
Cansei de me desarmar.

Fase II - Paixão

Eu já contei estrelas,
ovelhas,
grãos de areia
na ampulheta.
Já deitei na grama
só pra namorar a lua
e esperar a noite da tua vinda.
Dormi na rede
pra me embalar com tua ausência
sempre tão presente.
Procurei palavras
no quebra-cabeças do silêncio
e vasculhei palheiros
em busca de agulhas
precisas pra te tocar.
O que eu preciso
é da exata imprecisão
do teu sorriso,
do teu olhar cheio d'água
me dizendo do teu amor maior
que ocultas e do gozo que ostentas
acintoso
em minhas mãos.
E deste torpor
de vulcão adormecido
querendo varrer pompéias
de solidão.

Fase I - Atração

Taquicardia.
Um olhar derrota
a apatia,
uma palavra fugidia
- vem -
vence o que eu não diria,
escreve com tua letra
a minha poesia.
Um toque colore
a face do dia
vermelho,
e eu me faço
tapete do seu passo,
espelho
desta fantasia.
O que eu seria
se você quiser que eu seja
um dia.
Me beija
como quem tem certeza
do que faria,
como a luz que irradia
de quem caminha.
Prova a teoria:
vida é frio na espinha.

terça-feira, 24 de março de 2009

Poema pra minha puta

Eu quero o pacote completo,
o programa inteiro,
beijo, boquete, boceta e cu.
Meu pau ereto
vai se locupletar louco
no play do corpo.
Não tem outro jeito,
não há dia perfeito
que não seja em nudez:
hoje, sempre e outra vez.

A vez

Era pra ontem
Ficou pra hoje
Deixa pra amanhã
Nunca será.

O pior já passou

Acordei hoje com um gosto
de fim de mundo.
Na verdade, já perdi o juízo final.
O horóscopo no jornal diz
que o dia é bom para relações afetivas,
mas meu coração está aflito,
premonição de algo ruim.
Pior não pode ser:
você partiu em silêncio,
sem ter a coragem e a decência
de dizer que o amor chegou ao fim.

Eu sou nada

O frio me corta
no sentido sul.
Produzo fogo
em um ponto remoto.
Apenas o suficiente.
Nada sob a pele
que atinja o coração.
Nas veias corre lava,
mas quem encara meus olhos
não vê sinal de alma.
Desapareço dos espelhos,
não sou visto em retratos
nem no véu da noite.
O sol retalha a manhã.
Nada de sombras,
parto sem deixar pistas
e não pretendo voltar.
Você já terá me esquecido
após o café.

sábado, 21 de março de 2009

Para as noites de chuva

Procurei de madrugada na livraria
companhia para a chuva
que do lado de fora parecia
chiado de agulha sobre álbum de vinil.
Comprei muitos livros pelas orelhas persuasivas
e jamais li os volumes.
Sou fácil de ser seduzido,
basta um sorriso, promessa de felicidade
efêmera que minha imaginação fértil
delira ser eterna.
Com ouvidos e olhos sobre os discos,
exausto e confuso, desisti de acompanhar
tantos lançamentos.
Restam o café e o cigarro
preenchendo as horas:
coisas simples.
Gente eu não agüento mais.

O velho da Ilha de Faaroe

Caminho e não falo com ninguém o dia todo,
enormemente fascinado pelo silêncio e pela solidão,
longe da ruidosa prostituição e da carnificina
do cinema.
Defino-me como um espectro quase lendário vagando pela costa leste.
Esta ilha é o começo e o fim e, de fato, o tudo.
Nunca exílio, mas fonte de inspiração vital.
Sinto falta da última mulher que amei
e estou muito próximo dela.
Nossa história foi infinitamente estimulante
mesmo depois da sua partida.
Não acredito em reencontros noutra vida.
Ela foi minha verdadeira coluna vertebral.
Mais que as torturas do desejo
esta solitude encerra
os sorrisos de uma noite de amor.

para Ingmar Bergman, 86 anos em 15.07.2004

Deve haver algum sentido em mim que basta

Estar no canto oposto diante de você
reforçou a certeza de que é a mulher mais linda do mundo.
E então serviu-se uma bebida,
talvez para tornar mais leve
a busca vã de sentidos.
Eu encontrei o meu
quando nosso olhar se cruzou,
atravessando a cena como ponte invisível.
Ali, senti que estamos ligados.
Suas palavras me chegam como dedos
na tomada.
Eu fui outra pessoa antes de te conhecer,
antes do amor me fazer nascer de novo.
Eu te amo.
Este é o meu sentido. O único.
Está em mim. Me basta.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Ventura

Se por ventura, tivermos tempo, será na sexta.
Se por vontade, tivermos hora, será melhor.
Se por verdade, sentirmos desejo, nos tocaremos.
Se por virtude, formos justos, ficaremos juntos.
Se por vaidade, nos evitarmos, perderemos.
Se por vício, mentirmos, repetiremos o erro.
Se por veleidade, nos beijarmos, nos encontraremos.
Se por sorte nos acharmos, permaneceremos.
Se por acaso, tivermos chance, aproveitaremos.

Meus guardados

Há muita coisa em meus guardados
que, confesso, não consegui achar.
Alhos e bugalhos.
Sem a presunção elitista
do trigo sobre o joio.
À luz do olho
é tudo parte
do que não consegui viver
e tentei aprisionar.
Lembranças a espetar
cruel e repetidamente
a memória do possível
que jamais ocorreu.

O disco

Arraial do Cabo (RJ). Foto: Leandro Wirz
Apenas ponha o disco para tocar
novamente e
me deixe só.
Minha velha poltrona vermelha
guarda meu corpo
como ninguém,
mas não evita
que os pensamentos em você
formem uma coroa de espinhos.

Nem tudo que dói sangra
mas toda dor vira costume,
não notícia.
È morno calor
(que envolve)
quando não há mais nada.
Feche a porta sem barulho
permita ao sol se pôr
em meus horizontes.

Leituras

eu leio os seus lábios.
eu leio os seus olhos.
leio seus gestos.
leio mãos, estrelas,
as cartas, os diários,
os bilhetes rápidos.

me debruço sobre cada palavra
em busca de sentidos porque
a dor me alfabetizou.
deus está nos detalhes.
e o diabo também.


é desespero vão.
seu discurso é leve,
displicente, agradável.
não há camadas de intenções.

fiquemos no raso.
o claro em excesso
é como pedra.

sábado, 7 de março de 2009

O pedido

Acaso ou destino, eu voto consciente
pelo desatino!
Todos os beijos e os quereres
fazem sentido
quando me vejo frente a você.
Renunciar aos prazeres
é a mais assustadora das escolhas.
E também a mais covarde.
O amanhã é só um caderno
de possibilidades
onde se escreve céu ou inferno.
Eu quero ser o que arde!
Só este tem asas.
O que sinto, guardo em casas
de portas abertas
onde o amor é raridade e oferta.
O único tempo é o agora,
repito o meu presente
e te peço: não vá embora.
Não hoje, não no agora de amanhã,
não na manhã deste agora.

domingo, 1 de março de 2009

Uma noite só

Todo mundo tem um coração faminto
todo mundo precisa de um pouso
todo mundo precisa de um corpo
como o seu.

Todo mundo precisa de café, cigarros,
uns trocados e amor
Todo mundo precisa de uma taxa de risco,
um teor alcóolico,
um pouco de poeta e louco.


Todo mundo quer a nudez,
todo mundo quer a sua vez,
eu quero fumo, beijos e talvez
nunca mais te ver.


A vida é isso: perder.

Maçãs

Venho tomando três
banhos gelados por noite,
tenho rezado terços,
padres-nossos, minhas nossas!
Minhas costas se contraem
ao açoite.
Eu pago os preços,
eu creio que ser feliz
é provar
maçãs.
Minha consciência me contradiz.
Eu me afogo em duplos cowboys,
você não sabe o quanto me dói
desejar sem querer
quando querer é poder.

Marrento

Eu tomo soro
depois de muita cachaça
eu fumo Marlboro
pra respirar fumaça
eu provoco o touro
só de pirraça
eu quebro o decoro
de noite na praça
eu desço o couro
no meio da massa
eu taco côco
em plena vidraça
eu crio rolo
pra ver a arruaça
eu faço o bolo
e como de graça
eu passo o rodo
porque tudo passa.

(Des)Perfeição

O sangue pinga
sobre o vidro
e escorre lento
como me sento
recostado à parede.
Como eu me sinto,
quem sabe?
Quem liga
o alarme,
o telefone?
Nem sequer uma carta
sob a porta.
Apenas letras mortas
as leis, as juras que fizemos,
as sepulturas que se visitam
uma vez por ano.
Passei tantos anos
tentando destruir a perfeição
que, enfim, consegui.
Entre flores e crânios cor de rosa
eu sou tão pálido,
envelhecido, amarelado,
páginas de livro
que escrevi sem consciência.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O processo

Entre todas, só uma certeza:
O carnaval acabou em Veneza.
O carnaval acabou no Rio de Janeiro.
É preciso, para ser inteiro,
fragmentar-se, estar em pedaços,
partir pelo caminho passo a passo.

Então, corta-se a música e a rima.
O silêncio me conta tudo em segredo.
Pelos poros, transpiro a escuridão.
Elimino o que preciso, mas já não quero.
Não sei onde estou, mas não estou perdido.
Estou no início, amarrado, seguro.

Deixo o vício como quem troca, não a pele,
mas o espírito.
Visito o inferno e cumprimento
o demônio olho no olho.
Estou aqui!! Grito, mas não me deixo tocar.
Antes disso, firo com lâmina e verbos.

Eu sou eterno. Sou hoje um e outro amanhã.
Renovado. Forte. Pronto. Apto.
E agora, sereno,
em letras todas minúsculas
escrevo uma nova história em que todas
as palavras têm função e sentido.

Capítulo um, versículo primeiro.
Recito o cântico em que o anjo sou eu.
E as folias pagãs e a aleluia glorificam
o homem que segue adiante.
Eu renasço. Eu me transformo e me faço
à minha imagem e semelhança.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Presença

Acreditei em mãos entrelaçadas.
Eu estava errado.
Mãos espalmadas são o amor.
As quatro, separadas, postas lado a lado,
de onde tudo parte em entrega
sem esperar retorno.
E onde, sem esperas, o que chega é bem-vindo.
Estar inteiro sempre, sem precisar de nada.
Apenas querendo.
Sabe amar quem vive bem sem amor.
Aqui estão minhas mãos,
aqui estão meus olhos,
meus gestos e eu.
Amor é silêncio.

O baile de máscaras

Foto: Leandro Wirz



Poetas são carcereiros
com gordos molhos de chaves
atados à cintura.
Trancafiam em celas escuras
vulcões que cuspiriam palavras ferventes.
Mas elas saem em desfile calculado,
vestindo máscaras de ferro,
pesadas na balança de precisão,
eleitas pela acurácia dos ourives
na aferição dos quilates
ou pelos ouvidos treinados dos afinadores de piano.
Nada dos trinados anárquicos
dos pássaros pela manhã
ou dos vidros trincados pelas pedras da solidão.
Nestas masmorras sujas
de nobres e vis desejos,
quase tudo dói.
Mas os poetas em atávico desamparo
fingem que apenas espremem espinhas
e tiram cravos do coração.

Onde estão meus rios de lava?

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Tochas

Se vai tudo mesmo se acabar
amanhã
sejamos ao menos um pouco
dignamente loucos
hoje.
Se terminaremos mesmo distantes
em estradas que se perdem
façamos deste instante
algo que valha a pena
e nos lembremos de tudo
com um vago e gostoso sorriso futuro.
Vamos fazer com que esta noite
se lembre de nós a cada lua
sem nada dizer ao dia.
É uma chance que passa
de brilharmos fugazes
como estrelas cadentes e fogos de artifício.
Se vamos mesmo voltar a ser poeira,
por que não abrir os braços
e atirar-nos à vida?
Que o vento bata no rosto,
os tambores rufem com força
e o fogo se acenda
em todas as tochas.
Se amanhã serão as cinzas,
que não haja sinal
de arrependimento pelo que fizemos.
Que não fique na boca a secura das ressacas
nem a amargura dos dias não vividos.
Se amanhã o sol
nos levar a caminhos separados
que levemos no peito um ao outro.
Eu vou te respeitar para sempre
por termos juntos sido
dignamente loucos.
E se acharmos que esta noite foi pouco,
ah, isso já é uma outra história.

Vontade

meu olhar te seca
minha voz te molha
minha mão te cerca
minha língua te toca


minha boca te chama
minha perna te segue
minha vontade é de cama
meu corpo te pede

Vidraça

A cada dia que passa,
cada vez que abraça
outro cara,
ah, você me despedaça.
Sua desatenção
é pedra na minha vidraça,
é caco que espeta
o meu coração.
O que quer que eu faça
não espanta
a solidão,
quando você passa
me encanta,
mas você não pára.
Cada vez que abraça
outro cara,
ah, você me despedaça.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Pique-pega

Então ela me propôs:
Eu vim aqui fugir de você.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Faz

Faz minhas noites
mais
leves
Faz meus dias
mais
breves -
intensos.

Faz meus momentos
mais
vivos
Faz meus risos
mais
ricos -
sinceros.


Faz meus instantes
mais
inteiros
Faz minhas horas
mais
agora -
eternas.

Cartas marcadas

Existem os que vencem,
os que perdem
e os que cantam a dor.

Na sua lembrança, serei
não um perdedor, vítima do mundo,
mas um poeta, vítima de si mesmo.

Escrever é masturbar a vida.

A missão

Até quando
cantaremos esta mesma
velha canção
insistente
e inútil ?

Até quando
seremos quixotes
inadaptados
e acreditaremos que somos
heróis e não imbecis?

Até quando
seremos orgulhosos
de nosso incorruptível fracasso,
alimentados
pela mísera, tola e nobre
missão
que julgamos ter.
Ah, como é vã nossa esperança.
Eu já fiz quarenta.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Nunca seja minha

Não seja nada
além do que é.

Guardo o que admiro,
não o que possuo.

Nunca seja minha.
eu te perderia.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Suave imprudência

Foto: Leandro Wirz





Hoje, ele amparou meu rosto
com a mão e enxugou minha lágrima.

Será que ele sabe o quanto
isso é perigoso?


sábado, 24 de janeiro de 2009

Quem tem

Só acredito que você virá quando entrar.
Aprendi com tuas faltas a esperar menos.
E amar sem esperar é ainda mais generoso.

Amor desesperançado,
desiludido, realista, imperfeito.
O melhor que há, o mais verdadeiro.
Quem tem menos a perder tem mais a dar.

Sugestão

O amor justifica tudo.
Verso que abre o poema
e encerra o discurso.
O amor justifica até rimas em ão,
desde que venham do coração.
O amor justifica nossos atos,
garante a vitória da coragem
sobre o medo.
Amor é companhia de viagem
e ao mesmo tempo é casa
sempre com cheiro de nova.
Como meu corpo é a casa do teu.

É alguma coisa viva

A vivacidade da cor mais intensa,
a força do fogo indomável,
o mistério do punhal inesperado
me invadem e dominam os dias.
Assolam as noites feridas
pelo açoite da tua ausência.
Tenho a sede dos excluídos
o apetite crônico, o sonho do insone.
Tenho fome do teu corpo.
Teus olhos roubam os meus,
me vicia teu cheiro,
tuas pernas envolvem meus quadris.
O amor não se esconde sob a pele,
é coisa da carne:
te sacia nua sobre mim!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Terra do Nunca

Os teus sins são sinais,
incerto caminho
em tela impressionista.
Primeira impressão
num segundo hesitante.
Mundo embaçado
pela lente que chora
numa imprecisa hora
eleita pelo acaso.
Nada demais.

Nada é mais que a gente.
Tudo grita, mas nada
como um amor mudo.
Um grito surdo!
Que erra
pela terra do nunca,
onde os sinais esboçam um truísmo torto:
amor que não pode viver
não pode ser morto.

E não é outra

Basta olhar.
Eu minto.
Não é o bastante.
Bate o meu pulso
com o instinto
de tocá-la
como se fosse
questão
de sobrevivência.

Também não basta tocar.
Eu sinto.
Não é suficiente.
Sua meu corpo
com o desejo
de surfar
a pele morena
como se fosse
meu próprio
oceano.

Ainda não basta.
Eu insisto.
Não é só isso.
Vibra a alma
com a vontade
de ser par
como se fosse
feita
pra te acompanhar.

E não é outra a razão do poema.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Hoje

Melhor não -
ela diz.

Eu não ouço.
Meus olhos já estão nos dela
Minha mão em sua cintura
Minha boca chegando na sua.


Melhor não –
ela diz,
sem convicção,
quase um sim.

Hoje, não quero o melhor.
Me deixe apenas
com o bom.