terça-feira, 20 de março de 2012

navegar é preciso

o mar impreciso deixou
única folha trazida, imprevista,
pousada mansa sobre o concreto
sugerindo sorriso.
poesia e precisão.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Vastidão


Abri a janela e vi o horizonte tão extenso.
Quis pegar todas as estradas –
a começar por qualquer uma –
e correr.
Conhecer tudo.
Bobagem.

Vasto mesmo é o mundo que guardo em mim.
Não o mundo da imaginação por onde
este vinho e este cigarro me fazem viajar.
A imaginação é pequena. Não oferece riscos.

Quero beber até a última gota do cálice do amor
E me dissolver, alma e ossos, até não ser.

E ser então de novo.
Uno e único.

Livre é quem ama até o fim
e se torna capaz de ficar só
para o que der e vier.

Por enquanto eu não sou capaz de amar.
Abri a janela.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Roteiro


Tenho exigido muito de você
que permanece ao meu lado à mesa do café,
na cama, durante o jantar,
ciente, paciente, silente.
Todos os dias, tenho sutilmente
declarado meu desamor
ou, melhor, desdeclarado meu amor.
Que antes tanto havia
ou era algo próximo a isso
o que eu sentia.
Agora, preciso buscar o que perdi
antes mesmo de você.
Tenho sido crítico mordaz
do filme da minha vida
muito mais que roteirista ou diretor.
Sou turista fazendo fotos
de palavras – quem vale mil de quem? –
E sou prisioneiro do eterno ir.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A minha verdade

Estamos todos soltos no labirinto do Minotauro.
Soltos não.
Despejados aqui para a cruel diversão de deus ou do destino,
ratos em seu laboratório.
A cada paixão, tenho a miragem de uma janela,
ilusão de esperança e liberdade.
É apenas a hora de sol,
o passeio no pátio do cárcere.
Devo me amarrar à árvore no deserto
e, em silêncio, jejuar por luas,
até que brote a nascente da rocha.
A minha verdade.
Eu não sei fazer silêncio.
Calar o pensamento e soltar a voz
da intuição.
Eu venho tentando sentir o gozo
e a dor no corpo.
Mas é preciso navalhar abaixo da pele.
É preciso o rasgo.
A liberdade.
O que seja sentimento sempre renovado
e não o vício da emoção
repetida em doses mais fortes
em intervalos mais curtos.
Tudo que eu dei até hoje foi a minha vida.
Em vão.
Eu não vivi.
E jamais amei.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

My way



Almoçarei sozinho aos domingos:
filé ao ponto para bem, com guarnição à francesa
e duas cervejas
no restaurante de sempre,
onde os garçons já me conhecem pelo nome.
Voltarei a pé para casa
e assistirei sem muito entusiasmo
ao jogo do Flamengo na TV.
Ou a algum filme no cinema perto,
se estiver disposto.
Mais tarde, lerei um pouco, navegarei
pela vida alheia nas redes sociais
e deitarei, depois de ouvir “My way”,
sem que o telefone tenha tocado sequer uma vez,
sem ter trocado palavra com ninguém
que não sejam os porteiros, os vendedores e os garçons.
E serão só eles que, em um domingo qualquer,
notarão que eu não fui mais.

sábado, 14 de janeiro de 2012

O dom da dor




Nem que eu deite a cabeça em seu colo
Nem que eu chore no seu ombro
Nem que você me dê seu sorriso mais lindo
Nem que você me abrace até estalar a coluna
Nem que você diga o quanto me ama
Nada pode diminuir esta solidão.


Nem que a casa esteja cheia de gente
Nem que a música esteja no máximo
Nem que a festa vá até de manhã
Nem que você me devore com a vontade
dos desejos urgentes
Nada pode diminuir esta solidão.


Nem o vento minuano refresca
o abafado desta noite avessa.
Hoje, a noite é não.
Completamente.
Sou o leão. Sou a jaula.
O domador. A dor.

Tudo que tenho feito




Seria mentira se
eu dissesse que não gosto
de despedidas.
A única que doeu de verdade
foi minha própria partida,
o dia em que eu calei,
mas sabia que me dizia
adeus.
Nunca mais fui eu.


A gente não foge de pessoas,
não evita situações,
a gente só foge de si,
como se esse encontro não fosse inevitável.
E agora que passei da metade da vida
não posso mais ser tão distante de mim.
Há tantos anos repito
a mesma ciranda insana,
o mesmo circo, o velho carrossel.

Eu nunca cresci ou construí
e agora estou tão cheio de nada.
Ainda que eu não consiga mais me enganar,
ouço forte o chamado da estrada.
Seria mentira se
eu dissesse que não gosto
de despedidas.
É tudo que tenho feito na vida.
Nunca me vi nos olhos de ninguém.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Dogma


Aprenda
a minimizar suas vontades
reduza
seu tudo
ao essencial,
ao que couber
numa única mochila.
Desconsidere fronteiras,
e ganhe o mundo.
Deixe rastros –
despretensiosos como pegadas na areia –
nunca restos.
Descarte
a saudade e o arrependimento,
completamente inúteis
como a arte.
Sê todo, como escreveu o poeta,
e não parte.
Parta
e volte sempre
nu ante o espelho,
nu como te vejo.

Quando tudo tinha acabado


Ela não sabia o que dizer
e entrecortou o silêncio –
sua aflição, meu conforto - 
com as lâminas das palavras
de amor.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Companhias



Domingo de manhã no calçadão,
os homens com seus cachorros,
as mulheres com seus filhos,
as crianças com seus brinquedos,
as enfermeiras com seus idosos,
e eu
nem comigo.