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domingo, 6 de junho de 2010

Nada original

Não sou nada original.
Sou liquidificador vital
para amélias modernas.
Antenas.
É com isto apenas
que escrevo poemas.
Mais honesto dizer que roubo.
Às centenas, milmilhareslhões
de palavras, entonações,
vírgulas, versos, emoções.
Cantilenas.
Cacos de melodia enterrados na memória.
É da ausência –
mais que da história –
que se compõe a poesia.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A traição da memória

No velho cartão amarelado
deveria estar escrita sua promessa
de amor eterno.
Na foto envelhecida
você deveria estar ao meu lado.
Essa sua ausência gritante
é mais forte e duradoura
do que poderia ser a mais imponente
presença.
O vazio nos dita.
O vazio define a minha história,
determinada não tanto por aquilo que fiz,
mas por aquilo que entre meus dedos
derramou-se ao longo do tempo.

O que me resta é apenas uma narrativa
borrada pelas deformações da própria memória.
Esta é mais terrível das solidões.
Não conto com ninguém, nem comigo mesmo.
Avanço em quartos escuros
reminiscências esfumaçadas
palavras pastosas em bocas de não sei quem
Tropeço em pontos cegos,
embaralho pessoas, tempos, gestos
Como se os escaninhos perdessem as divisórias
e tudo fosse uma imensa teia melada
na qual deslizo como num sonho
ou a própria realidade.
A mesma história antiga se repete diversas vezes
E nunca é da mesma maneira.
A cabeça é um cão infiel.

domingo, 7 de junho de 2009

As estradas sadias

Você deve ser mais feliz
seguindo a trilha natural que sai do seu jardim.
Meu caminho é mais torto.
Invejo estradas largas e sadias,
mas não posso me queixar:
tive muitos amores e
chorei muitas vezes de dor
e desentendimento.
Amar é deixar ir.
As memórias são mais sólidas e perenes
do que as realidades.
Guardo a sensação do que penso
ser amor.
Você foi o grande amor
daquela minha vida.
Foi eterno.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Meus guardados

Há muita coisa em meus guardados
que, confesso, não consegui achar.
Alhos e bugalhos.
Sem a presunção elitista
do trigo sobre o joio.
À luz do olho
é tudo parte
do que não consegui viver
e tentei aprisionar.
Lembranças a espetar
cruel e repetidamente
a memória do possível
que jamais ocorreu.

sábado, 20 de setembro de 2008

Memória das árvores

Ilha Grande. Foto: Leandro Wirz


Tenho tudo gravado na memória das árvores.
Desde os banhos ao ar livre no quintal,
as corridas ao redor da velha mangueira,
os aromas do jasmim,
até tua nudez sem culpas,
os rituais de provocação,
o cheiro do teu corpo suado.
Estava tudo guardado nos grossos troncos marrons,
no espesso verde, no sereno, no silêncio.
Então teus olhos puxados rasgaram a luz
como estiletes talhando a madeira
fazendo escorrer a seiva.
O que há de mais puro
que o desejo,
que o pecado?


Ao fim da estação, as amendoeiras
jogam as páginas da história ao chão
e qualquer passante vulgar pisa.
Meu corpo agora é assim. Tapete.
E os inevitáveis amores errados foram
aos poucos puindo seus fios, puindo, puindo.
Outono é minha estação favorita.
Está chegando o meu tempo.
Tudo bem. Está tudo guardado na memória das árvores.