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domingo, 27 de setembro de 2009

Vírgula do tempo

Por acaso, o relógio do blog acusava
postagem precisamente às 00h00,
numa vírgula do tempo,
um hiato entre o ontem e o hoje.
E de quem é este dia?

Quem é o senhor do tempo,
Ou, ao menos, deste tempo?
O tempo é o senhor da razão
como alegou o político do passado
ainda votado no presente?

Quem é que tem tempo?
Para a poesia, de certo que ninguém.
De quem é o tempo?
O tempo é mesmo seu?

Ou é ele que te leva?
E o que você faz?
E quem você é?

E que horas você vem me ver?
E até quando você vai ficar?

A gente achou que era para sempre
Mas o amor dura três anos.

Perguntas demais para o meio da noite.
Perguntas demais para a meia-noite.

Esquece, era só um texto curto,
bilhete perdido da insônia,
era só um recado
na vírgula do tempo
na curva do vento
dessa madrugada no cerrado.

terça-feira, 16 de junho de 2009

O tempo não adianta

O cronômetro disparado
marca minutos lentos,
e vara noites em claro.
Estou acordado,
estou atento
a cada movimento.
Você merece cuidados
e despreza detalhes
que fariam a diferença.
Pra onde sopram os ventos?
Não há resposta que não se altere
de tempos em tempos.
E quanto tempo me falta?
E quanto tempo te resta?

O coração disparado
marca passos lentos,
e bate em compasso de espera.
E quanto tempo te sobra?
E quanto tempo me resta?
Os dias escorrem pela fresta,
aonde você pensa que vai
sem tanta pressa?
Todo o tempo do mundo
é um tempo que não existe.
Devagar se vai ao longe –
longe de mim.
A vida não espera,
o tempo não adianta.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Instante

Quantos instantes na vida
explodem em magia e sentido?
Quando os olhos do outro
são espelho sem distorção?
Quando a vida pode acabar
porque atingiu a plenitude
e nem o fim é capaz
de roubar-lhe a eternidade?

Eu quero ser contemporâneo
dos meus sentimentos
perpetuamente.
Sem reparos sobre o que já passou,
sem dívidas a resgatar no que virá
e este presente
mal vivido, incompetente.

Eu quero o que não tive,
intenso, melhor ou pior,
com a ousada coragem da entrega.
Sou ao mesmo tempo – sempre o tempo! –
o abismo, a cobaia e a experiência.

sábado, 20 de setembro de 2008

Memória das árvores

Ilha Grande. Foto: Leandro Wirz


Tenho tudo gravado na memória das árvores.
Desde os banhos ao ar livre no quintal,
as corridas ao redor da velha mangueira,
os aromas do jasmim,
até tua nudez sem culpas,
os rituais de provocação,
o cheiro do teu corpo suado.
Estava tudo guardado nos grossos troncos marrons,
no espesso verde, no sereno, no silêncio.
Então teus olhos puxados rasgaram a luz
como estiletes talhando a madeira
fazendo escorrer a seiva.
O que há de mais puro
que o desejo,
que o pecado?


Ao fim da estação, as amendoeiras
jogam as páginas da história ao chão
e qualquer passante vulgar pisa.
Meu corpo agora é assim. Tapete.
E os inevitáveis amores errados foram
aos poucos puindo seus fios, puindo, puindo.
Outono é minha estação favorita.
Está chegando o meu tempo.
Tudo bem. Está tudo guardado na memória das árvores.